Guiné quer processar seus próprios minérios, mas falta energia para industrializar a África

A maior produtora mundial de bauxita planeja construir refinarias de alumina e avançar para a produção de alumínio. O desafio é ampliar a geração elétrica para atrair investimentos e reduzir a dependência da exportação de matérias-primas

A Guiné pretende transformar sua riqueza mineral em produção industrial, mas enfrenta um obstáculo que ameaça seus planos: a falta de eletricidade barata e confiável. O país da África Ocidental quer ampliar o processamento de bauxita, matéria-prima usada na fabricação de alumínio, e desenvolver etapas industriais que permitam reter uma parcela maior do valor gerado pela mineração. As informações são da Reuters.

A reportagem informou que o governo guineense planeja ter cinco refinarias de alumina em operação até 2030, com capacidade conjunta de produzir entre 7 milhões e 8 milhões de toneladas por ano. Três unidades estão em construção, segundo Daouda Diakite, assessor sênior do ministro das Minas do país. A estratégia prevê investimentos posteriores em fundições de alumínio e na transformação de minério de ferro em produtos intermediários para a siderurgia.

Transporte de bauxita na Guiné, na África Ocidental. O país é o maior produtor mundial do minério, utilizado na fabricação de alumínio (Foto: WikiCommons)

O problema está na infraestrutura necessária para sustentar essa expansão. A Guiné gera aproximadamente 1.000 megawatts (MW) de eletricidade, principalmente por meio de usinas hidrelétricas. Segundo Diakite, a industrialização pretendida exigiria uma capacidade entre 5.000 MW e 10.000 MW, considerando projetos como as fundições de alumínio, que demandam grandes volumes de energia.

“Precisamos de energia sustentável e estável”, afirmou o assessor durante a African Mining Week, conferência realizada na Cidade do Cabo, na África do Sul. O governo procura investimentos em diferentes fontes de geração, incluindo gás, carvão e energia nuclear.

A disputa pelo valor dos minérios

A estratégia guineense integra um movimento mais amplo de governos africanos para ampliar o processamento doméstico de recursos naturais. Em vez de depender da exportação de matérias-primas, esses países tentam atrair fábricas, desenvolver infraestrutura e gerar empregos industriais dentro de suas fronteiras.

A bauxita é utilizada para produzir alumina, que, por sua vez, é transformada em alumínio. O metal é empregado em setores como transporte, construção civil e embalagens. Cada etapa adicional de processamento pode ampliar as atividades industriais e a arrecadação local, embora os resultados dependam dos custos de produção, dos investimentos e das condições do mercado internacional.

A Guiné ultrapassou a Austrália e se tornou a principal produtora e exportadora mundial de bauxita. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, da sigla em inglês), o país respondeu por aproximadamente 33,2% da produção global do minério em 2024. A maior parte das exportações guineenses de bauxita e alumina tem como destino mercados asiáticos, especialmente o chinês.

O governo pretende usar o acesso às reservas minerais como instrumento de negociação com investidores. Entre as medidas discutidas estão a concessão de direitos de mineração e benefícios tributários para empresas dispostas a investir em ferrovias, refinarias e outras instalações industriais. O país também sinalizou a intenção de limitar os volumes de bauxita exportados para evitar excesso de oferta e pressionar os preços para baixo.

A aposta é ampliar o poder de negociação do Estado e fazer com que uma parcela maior da riqueza mineral seja convertida em atividade econômica doméstica. Para isso, porém, será necessário combinar regras estáveis, acesso ao minério, financiamento, infraestrutura e compradores para os produtos industrializados.

O custo da eletricidade

A experiência da África do Sul demonstra os riscos de tentar desenvolver a indústria de transformação sem energia competitiva. Dezenas de fundições de ferrocromo fecharam nos últimos anos, em grande parte devido ao aumento dos custos de eletricidade. Menos de 12 das 66 unidades citadas na reportagem continuavam em operação.

O contraste é relevante porque a África do Sul possui mais de 70% das reservas conhecidas de cromo, mas perdeu espaço na transformação industrial do minério. O caso mostra que a disponibilidade de recursos naturais, isoladamente, não garante que um país consiga estabelecer uma cadeia produtiva competitiva.

A geração elétrica também depende das condições climáticas. Na Guiné, a produção hidrelétrica favorece as exportações de eletricidade para países vizinhos durante a estação chuvosa. Nos meses mais secos, entretanto, o país precisa importar energia da Costa do Marfim ou do Senegal, segundo o assessor do Ministério das Minas ouvido pela reportagem.

A expansão industrial exigirá, portanto, não apenas novas usinas, mas também redes de transmissão e fornecimento capazes de atender à demanda durante todo o ano. A escolha das fontes de geração terá implicações econômicas e ambientais, enquanto o financiamento de projetos de grande porte continuará sendo um desafio.

Investidores e industrialização

Instituições como a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos e a Africa Finance Corporation estão entre os atores que apoiam projetos de processamento mineral no continente e pretendem ampliar sua participação, de acordo com a Reuters.

A mobilização de capital, contudo, não resolve isoladamente os entraves à industrialização. Refinarias e fundições exigem investimentos bilionários, fornecimento contínuo de matéria-prima, energia a preços competitivos e compradores para a produção. A ausência de qualquer um desses elementos pode comprometer a viabilidade dos empreendimentos.

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