África

Ações antidemocráticas do presidente da Tunísia teriam agradado ao Estado Islâmico

Para o grupo jihadista, democracia que nasceu no país com a Primavera Árabe é incompatível com o Islã

As ações antidemocráticas do presidente da Tunísia Kais Saied agradaram o Estado Islâmico (EI). Manifestações nas redes sociais sugerem que o grupo jihadista aprova os atos autoritários do mandatário, pois considera a democracia incompatível com o Islã, segundo informações do site Middle East Monitor.

A instabilidade política na Tunísia se estabeleceu definitivamente na Tunísia no dia 25 de julho, quando Saied destituiu o primeiro-ministro Hichem Mechichi, suspendeu as atividades do Parlamento por 30 dias e concentrou em suas mãos quase todos os poderes do Estado.

Três dias depois, ele demitiu mais um grupo de  funcionários do governo e deu sequência ao processo de desmanche democrático. Entre eles estão o procurador-chefe do exército, Taoufik Ayouni, o Diretor do Conselho do Primeiro Ministério, Moez Lidine Allah al Muqaddam, e o Secretário-Geral do Governo, Walid Dhahbi.

Presidente da Tunísia Kais Saied, que derrubou o governo democrático no dia 25 de julho de 2021 (Foto: Wikimedia Commons)

Para o EI, as decisões do presidente são mais compatíveis com aquelas pregadas pelo grupo jihadista. Ao contrário das pretensões do movimento Ennahda, partido político islamista moderado e com tendências democráticas, que classifica as ações de Saied como “golpe contra a Constituição” e é visto pelos extremistas como apóstata.

A última democracia

“A Tunísia é a única verdadeira democracia que emergiu dos protestos da Primavera Árabe de 2010-11, que derrubaram ditadores em um punhado de países. Mas desde então tem sofrido”, diz um artigo da revista The Economist que resume a última década no país.

Desde os protestos de 2011, a Tunísia teve dez primeiros-ministros diferentes, que falharam em combater a corrupção e em estabilizar economicamente o país. Novato na política, o jurista Saied era uma aposta dos tunisianos para mudar a situação. O discurso anticorrupção e a rejeição ao sistema político tradicional permitiram a ele vencer o pleito com mais de 70% dos votos, segundo o jornal britânico Guardian.

Um dia antes de Saied derrubar o governo, os tunisianos foram às ruas protestar mais uma vez. Veio, então, a queda do primeiro-ministro e a suspensão do Parlamento. Para os partidos de oposição, sobretudo o Ennahda, as ações do presidente configuram um golpe de Estado.

A favor de Saied pesa o apoio do exército, que já agiu para impedir o acesso de deputados e outros representantes populares ao Parlamento. A população, dividida entre apoiar e contestar as medidas, aguarda a nomeação de um novo governo pelo presidente, que por ora atua no comando do Executivo, do Legislativo e de boa parte do Judiciário.

EI forte na África

O EI, por sua vez, tem perdido força no mundo, sobretudo no Iraque, na Síria e na Líbia. Sem a mesma presença de antes, a estratégia atual do grupo é focada em ações isoladas empreendidas por lobos solitários ou células adormecidas, cujos seguidores são recrutados principalmente pela internet.

Paralelamente, o grupo tem sido bem sucedido em aumentar sua influência na África. Novas alianças e uma mudança de estratégia têm assegurado aos jihadistas um importante avanço no continente africano.

A milícia tem se fortalecido especialmente na Nigéria, em Moçambique, na RD Congo e no Sahel africano. Em seus canais de propaganda, o EI constantemente destaca suas conquistas na África como forma de compensar o enfraquecimento em outras regiões.