África está mais insegura e menos democrática que na década passada, diz relatório

Golpes de Estado, conflitos armados e a pandemia são fatores que contribuíram para estagnar o desenvolvimento no continente

A África está “menos segura, protegida e democrática” do que há dez anos, apontou um novo relatório sobre a governança do continente divulgado pela Fundação Mo Ibrahim na quarta-feira (25). Entre os motivos que sustentam o estudo e que resultaram em retrocessos nas áreas da saúde, educação e oportunidades estão seguidos golpes militares e conflitos armados crônicos. As informações são da rede Voice of America (VOA).

O Índice Ibrahim de Governação Africana (IIAG, da sigla em inglês), que analisa o desempenho dos governos em políticas, serviços e participação democrática em 54 nações, disse que a pandemia de Covid-19 teve forte influência na estagnação do desenvolvimento local nos últimos anos. Além disso, cita 23 golpes de Estado bem-sucedidos e tentativas de golpe desde 2012.

“Esse fenômeno de golpe de Estado, que era comum nos anos 1980, parece ter voltado à moda em certas partes da África”, disse Ibrahim, um empresário sudanês-britânico do ramo de telecomunicações que aplica parte da sua fortuna na promoção da democracia e da responsabilidade política na África.

Ação contra a utilização de Crianças-Soldado no Sudão do Sul, em 2018 (Foto: Unmiss/Isaac Billy)

De 2019 para cá, ocorreram oito golpes bem-sucedidos, destacou o IIAG. Somente o Mali e Burkina Faso sofreram dois durante esse período, que contribuíram para amplificar a instabilidade em uma região com graves violações de direitos humanos e de imensa presença de insurgentes islâmicos.

O relatório também fez um alerta de que as liberdades democráticas estavam se deteriorando, citando exemplos de repressões e ataques a manifestantes que reivindicam desde 2016 o fim da brutalidade policial na Nigéria troca de poder no Sudão

No quesito segurança, o IIAG aponta que, na última década, quase 70% dos africanos viram a proteção do Estado e o Estado de Direito diminuírem em seus países. Mais de 30 países caíram nesta categoria, revelou a Fundação Mo Ibrahim.

Na última posição está o Sudão do Sul, país afundado na violência, na fome e na falta de oportunidades econômicas. Em seguida vêm Somália, Eritreia, Congo, Sudão, República Centro-Africana, Camarões, Burundi, Líbia e Guiné Equatorial.

Para agravar o contexto de crise sanitária trazido pelo coronavírus, a violência estatal contra civis e a agitação política tiveram aumento em todo o continente após o início da pandemia. O estudo também relata que os governos usaram das restrições de enfrentamento à Covid para reprimir a oposição.

“Embora essa tendência seja anterior à pandemia, as tendências antidemocráticas existentes foram aceleradas pela introdução de medidas restritivas e provisões de emergência que foram mantidas por um longo período de tempo”, observou o relatório.

A guerra na Ucrânia também impactou nos indicadores de desenvolvimento em todo o continente, pontuou o bilionário ao jornal britânico Guardian, particularmente pela crise de alimentos gerada.

“A guerra na Ucrânia é um desastre para nós. Está afetando nossos preços de alimentos, está afetando nossos preços de combustível. É um grande problema. Temos sido infelizes por causa de uma série de choques um após o outro. A Covid-19 foi um choque não apenas em termos de saúde, mas também economicamente. Podemos também ver uma crise de dívida em desenvolvimento em muitos países africanos”, disse Ibrahim.

Em contrapartida, o IIAG constatou que uma melhor infraestrutura e conectividade de telefone e internet melhoraram as oportunidades econômicas em toda a África desde 2012. Outra melhorias também foram observadas em algumas categorias econômicas, educacionais e de equidade de gênero, disse Ibrahim. 

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