Governo da Nigéria coloca quadrilhas de ‘bandidos’ na relação de grupos terroristas

Grupos armados, sem qualquer vínculo ideológico, são os maiores responsáveis pelo sequestro de estudantes no país, em busca do dinheiro do resgate
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O governo da Nigéria passou a classificar como terroristas as quadrilhas de “bandidos“, nome popularmente atribuído a grupos armados sem vínculo ideológico que atuam sobretudo no norte do país. Eles são os maiores responsáveis pelos sequestros de jovens estudantes, crimes cujo único objetivo é obter retorno financeiro através do pagamento de resgate. As informações são da agência catari Al Jazeera.

Na edição de quarta-feira (5) do diário oficial, o governo federal rotulou as atividades dos “bandidos” como “atos de terrorismo e ilegalidade“. Assim, eles passam a receber o mesmo tratamento dedicado aos mais importantes grupos extremistas islâmicos do país, o Boko Haram e o ISWAP (Estado Islâmico da África Ocidental).

“Acho que a única linguagem que eles entendem – nós discutimos exaustivamente com as agências de aplicação da lei, chefes de segurança, o inspetor-geral da polícia – é irmos atrás deles”, disse o presidente Muhammadu Buhari à emissora Channels Television. “Nós os rotulamos de terroristas. Vamos lidar com eles como tal”.

A inclusão dos “bandidos” na relação de organizações terroristas significa que as punições contra eles serão mais duras. E se estendem a indivíduos suspeitos de serem informantes e apoiadores das quadrilhas, entre os quais estão pessoas que eventualmente forem flagradas fornecendo combustível e alimentos.

Militares do exército da Nigéria: “bandidos” serão tratados como terroristas (Foto: Exército da Nigéria/Reprodução)

As forças de segurança nigerianas apertaram o cerco contra os “bandidos” nos últimos meses, com ataques aéreos e o desligamento das redes de telecomunicação em partes do noroeste do país, a fim de forçar os criminosos a saírem de seus esconderijos na floresta.

No ano passado, as quadrilhas empreenderam uma série de ataques contra escolas e universidades, sequestrando jovens com o intuito de obter o dinheiro do resgate. Muitas vítimas continuam detidas. Na última terça-feira (4), em duas operações distintas, a polícia anunciou o resgate de cerca de cem estudantes que eram mantidos em cativeiro no Estado de Zamfara.

Por que isso importa?

violência que atinge o noroeste da Nigéria forçou dezenas de milhares de pessoas a deixarem suas casas e já começa a se expandir para a região central do país. Parte da população foge dos ataques dos “bandidos” e também da ação de grupos jihadistas, sobretudo o Boko Haram e o ISWAP.

Enquanto os jihadistas têm uma agenda ideológica muito clara, os “bandidos” agem somente por dinheiro. São principalmente jovens do grupo étnico Fulani que trabalharam como criadores de gado nômades e se envolveram em um conflito de décadas com comunidades agrícolas, na luta pelo acesso à água e às pastagens.

Os “bandidos” são os maiores responsáveis pelos sequestros de jovens em idade escolar, uma modalidade criminosa que tem crescido muito no país. O objetivo dos raptos é meramente financeiros, ou seja, receber o valor do resgate em troca da libertação das vítimas. As gangues também promovem invasões e saques em vilas.

A violência no noroeste nigeriano aumentou nos últimos meses, e a OIM (Organização Internacional para as Migrações) estima que houve cerca de 50 mil deslocamentos internos no país desde janeiro de 2020. Adicionalmente, 80 mil pessoas rumaram ao vizinho Níger nos últimos dois anos, situação que as agências de apoio à população temem gerar uma nova crise humanitária.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um porto seguro para extremistas. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Islâmico foram presos e dois fugiram.

Mais recentemente, em dezembro de 2021, três cidadãos estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de sanções do Tesouro Norte-americano. Eles são acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista.

Para o tenente-coronel do Exército Brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o anúncio do Tesouro causa “preocupação enorme”, vez que confirma a presença do país no mapa das organizações terroristas islâmicas.

“A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados não apenas por grupos extremistas islâmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real”, diz Soares, mestre em operações militares e autor do livro “Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin” (editora Escrituras). “O Estado e a sociedade brasileira estão completamente vulneráveis a atentados terroristas internacionais e inclusive domésticos, exatamente em razão da total disfuncionalidade e do colapso da atual estrutura de Inteligência de Estado vigente no país”. Saiba mais.

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