África

Etiópia mantém detenção de funcionários da ONU, que afirma desconhecer acusações

Governo etíope é acusado de manter milhares de pessoas encarceradas em locais sem condições, mesmo que não haja acusações contra elas

A ONU (Organização das Nações Unidas) reforçou nesta quarta-feira (17) o apelo pela libertação imediata de dez funcionários da entidade que seguem detidos em Adis Abeba, capital da Etiópia. O secretário-geral António Guterres afirmou, através de seu porta-voz, que “não tomou conhecimento de qualquer acusação” contra os detidos, nem recebeu informações que venham a justificar a ação.

A organização revelou que as autoridades também mantêm 34 empregados terceirizados na mesma situação, depois de terem sido detidos no norte do país, onde teve início um conflito entre forças rebeldes regionais e o exército federal que já se alastrou por outras regiões do país.

Guterres cobrou o governo etíope em função da imunidade dos funcionários da ONU, tanto internacionais como locais. E também expressou preocupação com os relatos de prisões e detenções arbitrárias no país, que, na visão do secretário-geral, servem “para aumentar as divisões e o ressentimento entre os grupos”.

Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia (Foto: Divulgação/Twitter)

O Escritório de Direitos Humanos instou as autoridades a libertarem imediatamente todos os detidos, ou no mínimo a reavaliarem as razões de detenção em tribunal “independente e imparcial”. No total, pelo menos mil pessoas teriam sido detidas na última semana, com alguns relatos apontando para número muito mais alto.

As condições nos locais em que estão os detidos são consideradas precárias, com muitos deles em delegacias superlotadas, o que viola os padrões internacionais de direitos humanos, incluindo as condições mínimas de tratamento.

O escritório considera preocupante que não sejam conhecidos os motivos de detenção nem acusação formal contra os detidos que sofrem maus-tratos na prisão.

Por que isso importa?

A região de Tigré, no extremo norte da Etiópia, está imersa em conflitos desde novembro, quando disputas eleitorais levaram Addis Abeba a determinar a tomada das instituições locais. A disputa opõe a TPLF (Frente de Libertação do Povo Tigré), partido político com um braço armado, às forças de segurança nacionais da Etiópia, amparadas pelo exército da vizinha Eritreia.

Os militares chegaram a reconquistar Tigré, mas os rebeldes viraram o jogo e começaram a ganhar território. No final de junho, eles anunciaram um processo de “limpeza” para retomar integralmente o controle da região e assumiram o comando de Mekelle, a capital regional.

Pouco após a derrota do exército, o governo da Etiópia decretou um cessar-fogo e deixou Tigré. Os soldados do exército da Eritreia, que apoia Addis Abeba, também deixaram de ser vistos por lá. Posteriormente, com o avanço dos rebeldes, que chegaram inclusive às regiões vizinhas de Afar e Amhara, o exército foi enviado novamente para apoiar as tropas locais.

Em meio à disputa entre rebeldes e governo, a região enfrenta uma campanha que gera fome e violência e já deteriorou as condições de vida de cinco milhões de civis.

Conteúdo adaptado do material publicado originalmente pela ONU News