África

ONU relata violações de direitos humanos em Tigré e vê risco de o conflito se alastrar

Investigação apura ataques a civis, execuções extrajudiciais, tortura e desaparecimentos forçados, bem como violência sexual de várias formas

O conflito entre rebeldes e forças do governo etíope na região de Tigré, no Norte da Etiópia, “continua inabalável”, e são inúmeros os relatos de “graves violações dos direitos humanos, da lei humanitária e dos refugiados”. As informações foram divulgadas na segunda-feira (13) pela alta comissária da ONU (Organização das Nações Unidas) para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Em uma atualização para o OHCHR (Conselho de Direitos Humanos da ONU) sobre a situação, Bachelet disse, ainda, que o conflito “corre o risco de se espalhar para todo o Chifre da África”.

Nos últimos meses, “detenções em massa, assassinatos, saques sistemáticos e violência sexual” criaram “uma atmosfera de medo e uma erosão das condições de vida que resultou no deslocamento forçado da população civil de Tigré. O sofrimento dos civis e a impunidade são generalizados, disse ela.

O OHCHR e da omissão Etíope de Direitos Humanos (EHRC) realizam uma investigação conjunta para apurar as denúncias. Entre elas, ataques a civis, execuções extrajudiciais, tortura e desaparecimentos forçados. A violência sexual e baseada no gênero também inclui estupros de gangues, tortura sexualizada e violência sexual com alvos étnicos.

Refugiados de Tigré, Etiópia, aguardam em centro junto à fronteira com o Sudão (Foto: Acnur/Will Swanson)

De acordo com Bachelet, as forças do governo e seus aliados continuam implicados em muitas das denúncias. Os relatórios sugerem que pessoas de etnia tigré foram detidas por policiais por motivos étnicos, principalmente em Addis Abeba. Ela cita ainda ataques a jornalistas e a suspensão das licenças dos meios de comunicação, bem como o desligamento da internet e das telecomunicações em Tigré.

Entretanto, a alta comissária destacou que as forças rebeldes de Tigré também teriam sido responsáveis ​​por ataques a civis, incluindo assassinatos indiscriminados que resultaram em quase 76,5 mil pessoas deslocadas em Afar e cerca de 200 mil em Amhara.

Mais de 200 pessoas foram mortas nos confrontos mais recentes nessas regiões, e 88 pessoas, incluindo crianças, ficaram feridas. Também houve relatos de recrutamento de crianças para o conflito pelas forças de Tigré, o que é proibido pelo direito internacional.

Ajuda humanitária

Bachelet exortou o governo da Etiópia a aceitar as recomendações do relatório de investigação conjunta que será publicado em 1º de novembro de 2021 e cobrou acesso livre às equipes de direitos humanos e ajuda humanitária. O maior carregamento de carga humanitária até hoje foi transportado de avião para a Etiópia pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Cerca de 85 toneladas métricas de suprimentos médicos foram transportadas do Centro de Logística da OMS, com base em Dubai, para Addis Abeba na sexta-feira (10). Os suprimentos, incluindo medicamentos essenciais, kits para cirurgia de trauma e emergência, infusões, suprimentos, equipamentos e kits de cólera, são suficientes para atender às necessidades urgentes de mais de 150 mil pessoas.

“Esta entrega ajudará a fortalecer nossos esforços para fornecer ajuda a centenas de milhares de famílias que estão lutando com uma situação humanitária difícil”, disse a Boureima Hama Sambo, representante da OMS na Etiópia.

Conteúdo adaptado do material publicado originalmente em inglês pela ONU News