China investiu em 600 grupos para ganhar influência nos EUA, diz revista

"Newsweek" apurou presença governamental em associações empresariais, universidades e think tanks
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Para ganhar “os corações e as mentes” dos norte-americanos, parafreaseando uma expressão da Guerra do Vietnã (1955-1975), a China investe em uma estratégia de longo prazo.

A revista “Newsweek” apurou cerca de 600 grupos que impulsionam valores e objetivos de Beijing como estratégia para validar a visão de mundo do Partido Comunista Chinês nos EUA.

Entre esses canais, há associações empresariais, em universidades e think tanks, organizações de expatriados, grupos em aplicativos de mensagens e redes sociais.

Também há iniciativas como eventos e grupos cujo objetivo é fomentar relacionamentos com autoridades das cidades e estados, tudo com orientação direta chinesa.

China investe em 600 grupos para aumentar influência nos EUA, diz revista
Presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping (Foto: Casa Branca/Reprodução)

A revista também compilou as principais atividades de inteligência chinesa nos EUA, resgatando a declaração de Christopher Wray, diretor do FBI (Agência Nacional de Investigações, em inglês) de que a instituição abria um caso sobre a China a cada dez horas.

As declarações foram feitas neste ano em um evento nos EUA. Wray também apontou que metade das 5.500 investigações de contrainteligência norte-americanas em curso naquele momento tinham ligação com a China.

Nas redes sociais

Os chineses também têm criado contas falsas, com pessoas que não existem, em redes sociais. A prática, comum em ações de desinformação em todo o mundo, prevê que essas contas façam postagens para influenciar opiniões de eventuais leitores. São frequentes em grupos do Facebook e no Twitter.

A revista notou que a maioria das postagens foi traduzida de forma tosca, evidenciando que não se tratavam de opiniões de norte-americanos. Ao contrário da Rússia, porém, a China não investe na divisão partidária, defendendo ou difamando um lado específico.

Em vez disso, há postagens defendendo movimentos como o Black Lives Matter, quem pede o fim da violência policial, e o Blue Lives Matter, responsável pela defesa irrestrita de forças policiais. Para os chineses, argumenta a revista, o importante é criar divisões dentro da sociedade.

É sabido, porém, que a China preferia uma eventual eleição do democrata Joe Biden, visto como mais previsível e egresso do governo de Barack Obama, com quem Beijing teve boas relações.

Formadores de opinião

Na política, a China também investe na construção de boas relações com prefeitos, governadores e congressistas. Em fevereiro, veio à tona um ranking dos governadores norte-americanos, do mais ao menos “amigável”.

China investe em 600 grupos para aumentar influência nos EUA, diz revista
Bandeira da China em frente a embaixada chinesa nos EUA, em Nova York, em junho de 2011 (Foto: CreativeCommons/Tomas Roggero)

Foram 17 os considerados amistosos, 14 “ambíguos” e seis “linha-dura”. Sobre os outros, não havia informações suficientes.

Em Washington, o governo chinês tem colocado lobistas para interceder em nome de projetos de seu interesse. A meta é influenciar a tomada de decisão, atividade que não é proibida nos EUA, mas é vetada a governos estrangeiros. Neste caso, esses países usam seus contatos na política e na economia local para pedir uma “ajuda”.

O fechamento do consulado chinês em Houston em julho, por exemplo, aconteceu após acusações dos EUA de que havia espionagem ali. De acordo com fontes da revista, os chineses usavam sua influência junto a empresas farmacêuticas e de tecnologia na região para pedir reuniões com políticos locais ou oposição a leis que considerassem desfavoráveis.

O país tem investido em táticas de influência de longo prazo em diversos outros país. Há casos semelhantes na Austrália, na Suécia, na Itália, na Sérvia e na Nova Zelândia, entre outros.

Também há associações culturais que realizam o trabalho de propaganda chinesa nesses países. Um exemplo é o Instituto Confúcio, cujas unidades foram fechadas na Suécia por “questões de segurança”. Nos EUA, foram poupadas, mas categorizadas como “missões estrangeiras”.

Já as organizações vinculadas ao Front Unido, com foco nos expatriados, omitem sua relação com o governo e realizam eventos de “relacionamento”. Com orçamento anual de cerca de US$ 2,6 bilhões em 2019, usou cerca de um quinto desse valor em atividades no exterior.

Para seus eventos, já escalou nomes como Rick Snyder, ex-governador do estado de Michigan, e especialistas do think tank norte-americano Wilson Center. Nenhum deles sabia da ligação do Front com o governo em Beijing, assim como diversos chineses associados ao grupo.

Com as ferramentas de soft power cada vez mais sofisticadas e difusas, EUA e todos os países ocidentais têm repensado como se relacionar com a China. Embora seja um player global impossível de ignorar, esse relacionamento demandará o estabelecimento de regras e limites dos dois lados para uma relação transparente no futuro, aponta a revista.

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