Relatório dos EUA aponta presença chinesa no Brasil e levanta suspeita de base espacial com possível uso militar

Um relatório divulgado por uma comissão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos dedicada à competição estratégica com a China afirma que o Brasil faz parte de uma rede de instalações espaciais chinesas na América Latina que podem ter uso duplo, civil e militar.

O documento, intitulado “China in Our Backyard: Pulling Latin America into China’s Orbit” (“China em Nosso Quintal: Levando a América Latina para a Órbita da China”, em tradução literal), aponta que Beijing mantém ou tem acesso a pelo menos 11 instalações espaciais na região. Entre os países citados estão Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil. Segundo os autores, essas estruturas podem ser usadas para rastreamento de satélites, coleta de dados e monitoramento espacial.

No caso brasileiro, o relatório menciona dois projetos específicos que teriam ligação com a rede chinesa de infraestrutura espacial: uma estação terrestre na Bahia e um laboratório de radioastronomia na Paraíba.

Imagem meramente ilustrativa gerada por IA
Estação na Bahia levanta suspeitas

A principal estrutura citada no relatório é a chamada Estação Terrestre Tucano, localizada em Salvador, na Bahia. Segundo o documento do Congresso norte-americano, a instalação funciona na sede da empresa brasileira do setor aeroespacial Ayla Space, que mantém parceria com a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology.

A cooperação entre as empresas envolve a análise de dados de satélites dentro do Brasil. No entanto, os autores do relatório afirmam que a infraestrutura poderia permitir à China identificar ativos militares estrangeiros e rastrear objetos espaciais em tempo real na América do Sul.

O documento também sustenta que a presença da instalação poderia oferecer a Beijing um canal para acompanhar o desenvolvimento da doutrina espacial militar brasileira e consolidar presença estratégica em uma região considerada relevante para a segurança dos Estados Unidos.

Cooperação científica também citada

Além da estação na Bahia, o relatório menciona um segundo projeto no Brasil: o Laboratório Conjunto China-Brasil de Tecnologia em Radioastronomia, localizado na Serra do Urubu, no sertão da Paraíba.

O laboratório foi criado em 2025 a partir de uma parceria entre instituições chinesas e universidades brasileiras, incluindo a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O centro participa de pesquisas científicas voltadas à radioastronomia e à observação de sinais de hidrogênio no universo.

Apesar do caráter científico do projeto, o relatório norte-americano afirma que tecnologias espaciais e sistemas de observação profunda podem ter aplicações de uso duplo, com potencial emprego em inteligência militar ou monitoramento estratégico.

Debate político no Brasil

A divulgação do documento repercutiu no cenário político brasileiro. Parlamentares solicitaram explicações ao Ministério da Defesa sobre as suspeitas levantadas no relatório e sobre eventuais implicações para a segurança nacional.

Especialistas destacam que, mesmo quando apresentadas como iniciativas científicas ou comerciais, infraestruturas espaciais podem desempenhar papel estratégico na geopolítica contemporânea, já que o monitoramento de satélites e objetos orbitais é considerado essencial para operações militares modernas.

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