Ásia e Pacífico

Crise energética chinesa põe vidas em risco e ameaça o controle inflacionário global

Na China, temor é com a queda de temperaturas. No resto do mundo, o que preocupa é o aumento dos preços nos produtos chineses

A crise energética já é uma realidade na China, e a política de racionamento tem deixado residências e indústrias no escuro sem aviso prévio, por períodos que variam entre algumas horas até dias inteiros. A preocupação da população aumenta conforme se aproxima o inverno, com temperaturas negativas e maior demanda por eletricidade, o que coloca desde já muitas vidas em risco. As informações são da revista Forbes.

O racionamento, imposto inclusive a grandes indústrias, levou muitos empresários a investir em geradores movidos a diesel para não paralisar totalmente a produção, fazendo a venda dos aparelhos disparar no país. Enquanto algumas empresas, entre elas a Shandong Huali Electromechanical, registraram aumento acentuado nas vendas, outras, como a Weifang Yuxing Power Company, venderam todo o estoque em setembro. A escassez de geradores pode contribuir para a falta de calefação, o que seria fatal para muitas pessoas no inverno que se aproxima.

Crise energética chinesa põe vidas em risco e ameaça o controle inflacionário global
Beijing à noite, em maio de 2021: energia escassa na China (Foto: Shio Yang/Unsplash)

Entenda o problema

A crise energética pode ser explicada por uma junção de fatores concomitantes. As fortes chuvas causaram inundações nas principais províncias produtoras de carvão da China, sobretudo Xanxim, de onde sai cerca de 30% de todo o carvão consumido no país. Paralelamente, aumentou a demanda global por produtos chineses, com o afrouxamento das restrições impostas pela pandemia de Covid-19.

Também pesam as políticas de energia conflitantes do Partido Comunista Chinês (PCC), como o investimento forçado em fontes limpas. Num país extremamente dependente da geração de energia por usinas a carvão, o governo se viu forçado a suspender os limites de produção antes existentes por razões ambientais. O aumento significativo do preço do carvão e do gás natural em todo o mundo contribuem para a situação.

Adam Ni, analista do China Neican, um think tank australiano, afirma que as autoridades locais tiveram que recorrer ao racionamento porque os preços da eletricidade são controlados na China. “Com o aumento dos preços dos insumos, mas com os preços fixos do serviço de fornecimento, a geração de eletricidade se tornou menos lucrativa. E pode até se tornar um empreendimento deficitário”, disse ele.

Ni também cita a preocupação com o inverno, quando a demanda de energia aumenta sobretudo no frio nordeste chinês. E diz que o racionamento é uma estratégia do governo para reduzir a insatisfação popular. “Uma vez que o aumento dos preços da eletricidade pode levar a mais descontentamento social do que o racionamento, especialmente entre as famílias, as autoridades optaram por restringir a demanda por meio do racionamento”.

Crise energética chinesa põe vidas em risco e ameaça o controle inflacionário global
Mina de carvão: preço do produto e questão ambiental geraram crise energética na China (Foto: Albert Hyseni/Unsplash)

Alternativas possíveis

Uma das soluções encontradas pelo PCC foi afrouxar o controle do preço da eletricidade. A principal agência de planejamento econômico do país autorizou uma variação de até 20% no valor da energia fornecida a partir do carvão, a fim de forçar uma redução de consumo com base no aumento dos custos. Essa ação, porém, não será suficiente.

A indústria é responsável por 59% de todo o consumo energético da China, com destaque para indústrias pesadas como produção de cimento e fundição de alumínio e aço. Assim, o aumento do preço da eletricidade nesses setores será repassado ao consumidor final no preço dos produtos, estabelecendo uma maior pressão inflacionária no país.

E os efeitos não serão sentidos apenas na China. Com a cadeia de consumo global habituada aos baixos preços oferecidos pela indústria chinesa, a inflação doméstica impactaria no mundo inteiro, a não ser que a crise energética seja solucionada ou ao menos amenizada.

Portanto, a solução mais nítida no momento seria afrouxar as medidas ambientais e voltar a investir o quanto for necessário em fontes poluentes, como o carvão. A situação da China mostra a países de todo o mundo que jamais se poder dar por garantida a segurança energética.