Ásia e Pacífico

Milhares correm risco de vida ao fugir da violência militar em Myanmar, alerta ONU

Bombardeios, ataques e violência de militares no leste do país forçou milhares a se deslocarem; relator da ONU pede intervenção internacional

O relator especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para Myanmar, Tom Andrews, pediu nesta terça (8) que a comunidade internacional aja em prol dos cidadãos do país. No pedido, o especialista afirma que os ataques dos militares – no poder desde de fevereiro – “ameaçam a vida de milhares de homens, mulheres e crianças”, reportou a agência catari Al-Jazeera.

O apelo veio horas depois de o escritório da ONU no país asiático informar o deslocamento de mais de 100 mil pessoas fugindo da brutalidade em Kayah, no leste do país. Os refugiados foram para florestas, comunidades e partes do sul de Shan, estado vizinho. 

Manifestação contra a junta militar de Mianmar na cidade birmanesa de Demoso, abril de 2021 (Foto: Reprodução/Twitter/Aung Kyaw Khant)

Segundo Andrews, “mortes por fome, doenças e exposição podem ocorrer em massa em uma escala ainda não vista desde o golpe de 1º de fevereiro, sem ação imediata”.

Os refugiados precisam urgentemente de comida, água, abrigo, combustível e acesso à saúde, segundo comunicado do escritório da ONU.

“Esta crise pode empurrar as pessoas através das fronteiras internacionais em busca de segurança”, alerta a ONU. É preciso “tomar as medidas e precauções necessárias para proteger os civis e a infraestrutura civil”, diz o documento.

Cidadãos de Kayah disseram à Al Jazeera que os militares lançaram ataques e bombardeios em áreas civis. As investidas das forças de segurança iniciaram após os combates em 21 de maio, entre o exército e o grupo de resistência civil Karenni People’s Defense Force – KPDF (Força de Defesa do Povo Karenni, em tradução livre).

No mais recente ataque, pessoas relataram várias mortes, incluindo um adolescente de 14 anos assassinado a tiros no município de Loikaw. Um outro jovem teve as mãos amarradas e foi baleado na cabeça. Os militares também atacaram uma igreja católica que abrigava 300 pessoas, na cidade de Loikaw.

Andrews ainda afirma que os ataques militares contra civis em Kayah foram “os últimos de uma série em Myanmar, que causou deslocamento massivo e sofrimento humanitário”. Segundo o especialista, agora, mais do que nunca, a comunidade internacional deve cortar qualquer recurso destinado à junta militar.

Os militares também têm atacado e ameaçado trabalhadores humanitários. Andrews revelou ter recebido relatos de que os soldados estavam “impedindo a ajuda para essas pessoas desesperadas”. As forças estariam estabelecendo bloqueios militares e colocando minas terrestres em estradas públicas para impedir o acesso.

“O apelo deve ser direcionado ao líder, Min Aung Hlaing, para abrir as estradas de acesso e permitir que a ajuda vital chegue aos necessitados. Eles também devem parar de aterrorizar a população e cessar o bombardeio aéreo e os fuzilamentos de civis”, dizTom Andrews.

Progresso lento no plano da ASEAN

Na segunda-feira, ministros das Relações Exteriores da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) se encontraram com um enviado militar de Mianmar em Chongqing, na China. O grupo expressou preocupação com o progresso “dolorosamente lento” na implementação do consenso.

Após o encontro, a ministra das Relações Exteriores dos militares, Wunna Maung Lwin, afirmou que um programa de cinco pontos, anunciado após o golpe de fevereiro, seria a única maneira de garantir que o sistema seja democrático, disciplinado e genuíno.