Ásia e Pacífico

Partido Comunista Chinês joga dos dois lados na Mianmar pós-golpe militar

Após serem acusados de endossar a instauração inconstitucional do novo regime, agora, os chineses parecem estar acenando para os dois lados: militares e depostos

Beijing tem estreitado laços com Mianmar, que aprofundou o isolamento do Ocidente após o golpe de Estado no começo do ano. E, após serem acusados de endossar a instauração do novo regime, agora, os chineses parecem estar acenando para os dois lados, tanto para os militares quanto para o governo escolhido democraticamente e agora destituído do poder, de acordo com a Voice of America (VOA).

Ao mesmo tempo em que os chineses são os principais parceiros da junta militar que tomou o poder em Mianmar em fevereiro, quando uma ação inconstitucional tirou o governo eleito do poder, o Partido Comunista da China (PCC), ensaia uma aproximação aos depostos.

O partido que governa a China recebeu em uma cúpula regional virtual no último dia 9 a NLD (Liga Nacional pela Democracia), que venceu as eleições birmanesas com 82% dos votos e foi impedida de assumir o poder após a derrubada e prisão da presidente eleita Aung San Suu Kyi. A conferência online reuniu partidos políticos do sul e sudeste asiático.

Protestos contra o golpe militar de Mianmar, em fevereiro de 2021 (Foto: Divulgação/Ninjastrikers)

“Há ressentimento do lado da opinião pública com o qual a China precisa lidar e envolver a NLD e mostrar que a China ainda se lembra e ainda mantém relações com a NLD”, disse Yun Sun, diretora de programa da China no Stimson Center, uma organização de pesquisa de Washington.

Analistas enxergam o convite da China ao destituído partido pró-democracia de Mianmar para o diálogo como um movimento antigo da sua cartilha de política externa. O aceno visa à melhoria da péssima imagem chinesa deixada entre os birmaneses, protegendo interesses econômicos e estratégicos na nação do sudeste da Ásia.

No país, há uma polarização: o NLD é amado quase em igual proporção ao ódio que a maioria da etnia birmanesa sente pelos militares.

O partido foi alçado ao poder nas eleições de 2015 sob comando de Aung San Suu Kyi, proeminente figura pró-democracia no país, encerrando um longo período de domínio militar. A reeleição veio de uma vitória acachapante em novembro de 2020, quebrada por generais que alegaram fraude sem apresentar evidências e prenderam Suu Kyi menos de três meses após o pleito.

Logo após o golpe militar, Beijing classificou a prisão de Aung San Suu Kyi e outros funcionários do governo como uma “remodelação de gabinete” na agência de notícias estatal Xinhua. Enfurecido com o apoio chinês, o movimento pró-democracia passou a executar um plano de retaliação. Fábricas chinesas foram incendiadas, boicotes a produtos foram feitos e até ameaças em redes sociais que falavam em explosões de oleodutos, vitais para importações do Oriente Médio, foram feitas.

Em um cenário que tem Suu Kyi e dezenas de outros parlamentares do NLD sob custódia e o resto na clandestinidade, Sun disse que a intenção da China em manter contato com o partido não é para se proteger contra o colapso do regime militar. “Neste momento, eu diria que a China está convencida de que a junta teve sucesso”, disse ela.

Diplomacia tripla

Sun explicou que a China tem chegado perto do NLD através do PCC, e não de seu Ministério das Relações Exteriores, traçando um caminho frequentemente usado na diplomacia tripla de Beijing: o de manter relações com outros países separadas entre partidos, Estados e militares.

“Esta é uma plataforma partido a partido. Não indica de forma alguma o reconhecimento de um estado a outro ou as relações de um estado a outro. Este é um caminho completamente diferente”, disse Sun.

Ela disse que a China espera mostrar ao povo de Mianmar que não os esqueceu, e assim poderia ter o NLD como aliado no caso de o sentimento anti-China acabe se acentuando. A postura se vale de uma relação cordial entre os países nos anos pré golpe.

“Esses tipos de alavancas e canais de influência por meio do NLD ainda são muito importantes para a China. Não acho que a China os usará agora, mas manter o relacionamento é sempre melhor do que não mantê-lo”, contextualizou Sun.

Duas faces

Segundo Lucas Myers, analista para a Ásia do Wilson Center, um think tank norte-americano, o “jogo duplo” é uma prática chinesa de longa data.

As vendas de armas da China, por exemplo, têm armado os militares de Mianmar e alguns dos grupos rebeldes de minorias étnicas que os militares lutam ao longo da fronteira do país com a China há décadas, dando a Beijing alguma vantagem sobre o conflito.

Myers acredita que o último jogo duplo da China com a junta e a NLD pode sair pela culatra se acabar irritando os dois. Por outro lado, acrescentou, se isso ajudar a manter os dois ativos, “a China poderá ver sua influência se expandir, e os interesses, avançarem”.

Por que isso importa?

Mianmar enfrenta “uma campanha de terror com força brutal”, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas). A repressão imposta pelo governo já causou a morte de ao menos 900 pessoas desde o golpe de 1º de fevereiro deste ano, uma reação dos militares às eleições presidenciais de novembro de 2020.

Na ocasião, a NLD (Liga Nacional pela Democracia) venceu as eleições com 82% dos votos, ainda mais do que havia obtido no pleito de 2015. Em fevereiro, então, a junta militar, que já havia impedido o partido de assumir o poder antes, derrubou e prendeu a presidente eleita Aung San Suu Kyi.

O golpe deu início a protestos no país, respondidos com violência pelas forças de segurança nacionais. Centenas de pessoas foram presas sem indiciamento ou julgamento prévio, e muitas famílias continuam à procura de parentes desaparecidos. Jornalistas e ativistas são atacados deliberadamente, e serviços de internet têm sido interrompidos.

Mais recentemente, o governo declarou guerra a médicos e demais trabalhadores da saúde. As forças de segurança têm prendido, agredido e até matado os profissionais da área, considerados inimigos da junta que governa o país.

“Os ataques ao sistema de saúde são encarados como uma arma de guerra da junta”, declarou um médico em fuga há meses, cujos colegas de clínica foram presos. “Acreditamos que tratar os pacientes, fazendo nosso trabalho humanitário, é um trabalho moral, não um crime”.

Os médicos entraram na mira da junta porque são respeitados pela população e extremamente bem organizados, com sindicatos e grupos profissionais atuantes. Desde o golpe eles formam uma forte oposição ao governo militar e, atualmente, são voz importante para denunciar e combater os abusos.