A intensificação dos bombardeios de Estados Unidos e Israel contra o Irã levanta uma questão central no cenário geopolítico atual: até que ponto a China estaria disposta a apoiar Teerã. Apesar da parceria estratégica entre os dois países e da dependência chinesa do petróleo da região, analistas avaliam que Beijing dificilmente intervirá diretamente no conflito. A avaliação aparece em análise publicada pela revista Foreign Affairs.
Segundo o texto opinativo, a prioridade chinesa no Oriente Médio não é a sobrevivência do regime iraniano, mas sim a segurança energética e a estabilidade das rotas de petróleo.
A China observa atentamente a escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Beijing é atualmente o principal parceiro econômico de Teerã e importa parte significativa do petróleo iraniano. Em 2025, mais de 55% do petróleo importado pela China veio do Oriente Médio, sendo cerca de 13% diretamente do Irã.

Grande parte desse petróleo atravessa o estratégico Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de energia. Qualquer interrupção nesse corredor pode provocar impactos globais no mercado de petróleo.
Mesmo assim, a China tem demonstrado cautela. Após a chamada guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025, Beijing limitou sua reação a declarações diplomáticas genéricas. A postura se repetiu nas recentes manifestações do Ministério das Relações Exteriores chinês, que pediu o fim das operações militares sem responsabilizar diretamente Washington ou Tel Aviv.
Para Beijing, manter boas relações com os países do Golfo é tão importante quanto preservar os laços com Teerã. A região concentra alguns dos maiores fornecedores de energia do planeta e representa uma peça-chave para a economia chinesa.
Analistas chineses também passaram a demonstrar ceticismo em relação à capacidade estratégica do Irã. Apesar de possuir uma população significativamente maior do que a de Israel ou da Arábia Saudita, o país apresenta um desempenho econômico mais limitado.
Enquanto o PIB iraniano representa menos de 90% da economia israelense, ele equivale a apenas cerca de um quarto do PIB da Arábia Saudita. Na visão de estrategistas chineses, o Irã inflou sua reputação regional por meio de guerras por procuração e estratégias de guerra assimétrica.
Outro fator que pesa na avaliação de Beijing é a percepção de que Teerã evita confrontos diretos. Episódios recentes, como a resposta limitada ao assassinato general iraniano Qasem Soleimani em um ataque aéreo no Iraque em 2020 ou os ataques israelenses contra alvos iranianos na Síria, reforçaram a visão de que o país reage de forma contida diante de pressões externas.
Internautas chineses chegaram a ridicularizar algumas respostas militares do Irã, classificando-as como “retaliação performática”. Esse ceticismo também se reflete entre analistas e comentaristas políticos no país.
Apesar disso, Beijing não deseja o colapso completo do Estado iraniano. O principal interesse chinês é garantir que o Irã permaneça um parceiro econômico funcional e, sobretudo, que o fluxo de petróleo continue estável.
Nesse contexto, a relação entre Donald Trump e Xi Jinping também pesa no cálculo estratégico. Os dois líderes têm um encontro previsto para o fim de março, e Beijing não quer que uma escalada no Oriente Médio comprometa possíveis negociações com Washington.
A grande preocupação chinesa continua sendo a segurança energética. O petróleo ainda é essencial para setores estratégicos da economia chinesa, como transporte aéreo, navegação e indústria petroquímica.
Estima-se que a China possua reservas estratégicas entre 1,3 e 1,4 bilhão de barris de petróleo, o equivalente a cerca de 30% de suas importações anuais. Esse volume permite enfrentar interrupções temporárias no fornecimento, mas não uma crise prolongada.
O cenário mais preocupante para Beijing seria o fechamento do Estreito de Ormuz. Caso a rota seja bloqueada, mais da metade das importações chinesas de petróleo poderia ser afetada.
Se isso ocorrer, a China teria de buscar fornecedores alternativos, como a Rússia, que já responde por mais de 17% do petróleo importado pelo país. Ainda assim, Beijing evita depender excessivamente de um único fornecedor.
Analistas avaliam que a posição chinesa pode mudar apenas em dois cenários: uma guerra prolongada que ameace seriamente o fluxo de petróleo ou um fortalecimento inesperado do regime iraniano no campo de batalha.
Até lá, a estratégia chinesa deve continuar sendo a mesma: manter distância do conflito, preservar seus interesses econômicos e se preparar para trabalhar com qualquer governo que eventualmente venha a comandar o Irã no futuro.