A cidade russa de Kazan sedia a partir desta terça-feira (22) a cúpula do BRICS, bloco econômico encabeçado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Também participarão Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã, que se associaram em janeiro. Para Moscou, o evento é o palco perfeito para mostrar ao Ocidente que as tentativas de isolar o país, com sanções econômicas e até um mandado de prisão contra o presidente Vladimir Putin, falharam. É, ainda, mais uma oportunidade de estabelecer, junto com Beijing, o grupo como alternativa à ordem global liderada pelos EUA.
A cúpula receberá mais de 20 líderes, entre eles os presidentes da China, Xi Jinping, e do Irã, Masoud Pezeshkian, principais antagonistas do bloco ocidental. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não estará presente por decisão médica, após sofrer um acidente doméstico. A Turquia, que pode se tornar o primeiro membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a integrar também o BRICS, igualmente marcará presença.
“A mensagem clara é a de que as tentativas de isolar a Rússia falharam”, disse à rede BBC Chris Weafer, sócio fundador da empresa de consultoria Macro-Advisory. “É uma grande parte da mensagem do Kremlin de que a Rússia está resistindo às sanções. Sabemos que há rachaduras graves abaixo da superfície. Mas, em um nível geopolítico, a Rússia tem todos esses amigos e todos eles serão parceiros da Rússia.”

Outra presença marcante é a de António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), que tem uma reunião agendada para a quinta-feira (24) com Putin, alvo de um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por supostos crimes de guerra cometidos na Ucrânia.
Para o Kremlin, o BRICS funciona como um escudo contra as sanções. “A ideia russa é a de que, se você criar uma plataforma onde há China, Rússia, Índia, Brasil e Arábia Saudita, muitos países que são parceiros vitais para os EUA, os EUA não estarão prontos para ir atrás dessa plataforma e sancioná-la”, disse à agência Associated Press (AP) o analista Alexander Gabuyev, diretor do think tank Carnegie Russia Eurasia Center.
Entre as questões mais importantes que serão debatidas está uma que interessa particularmente à Rússia: a adoção de uma alternativa ao dólar para pagamentos globais. Caso entre em vigor, permitirá ao país contornar os efeitos mais duros das sanções internacionais.
“Muitos dos problemas que a economia da Rússia está enfrentando estão ligados ao comércio e a pagamentos transfronteiriços. E muito disso está ligado ao dólar americano”, diz Weafer à BBC. “O Tesouro dos EUA tem enorme poder e influência sobre o comércio global simplesmente porque o dólar americano é a principal moeda para liquidá-lo. O principal interesse da Rússia é quebrar o domínio do dólar americano.”
Aliança Moscou-Teerã
À margem do evento, Moscou aproveitará para estreitar ainda mais as relações com o Irã, um dos seus principais fornecedores de armamento durante a guerra da Ucrânia, especialmente drones. É esperado que Putin e Pezeshkian assinem um tratado estratégico nos dias em que o líder iraniano visitará a Rússia.
“Líderes iranianos veem a guerra na Ucrânia como uma oportunidade para aumentar a dependência de Moscou em relação a Teerã, bem como para receber tecnologia militar russa avançada”, disse o analista Javad Heiran-Nia, em artigo para o think tank Stimson Center. “Para a Rússia, laços mais estreitos com o Irã são necessários para aumentar a pressão sobre os EUA”, acrescentou.
O fator China
Moscou, porém, também tem com que se preocupar durante a cúpula. Há, por exemplo, sinais discretos de distanciamento entre russos e chineses, conforme Beijing se esforça para transmitir ao mundo uma imagem que não prejudique seu papel de protagonista no comércio global.
“Embora Putin queira que o relacionamento China-Rússia pareça tão bom quanto sempre, Xi também pode querer sinalizar aos Estados ocidentais e outros que Beijing permanece oficialmente ‘neutra’ na guerra da Rússia na Ucrânia e não é uma aliada formal de Moscou”, declarou à AP Eva Seiwert, especialista em política externa e segurança do Instituto Mercator de Estudos da China.
As discretas rachaduras na aliança se escondem por trás do discurso de seus líderes que de que o bloco está unido para redesenhar a ordem global liderada pelos EUA.
“No contexto das ações do Ocidente, nossos países devem buscar ativamente respostas conjuntas universais para os desafios de nosso tempo”, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia”, disse o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov durante a cúpula de 2023 na Cidade do Cabo, África do Sul.
O problema é que nem todos os membros compartilham dessa visão de Rússia e China. “O Brasil e a Índia claramente querem resistir a isso, então a cúpula de Kazan nos dará uma noção realmente interessante da verdadeira dinâmica política no Sul Global entre os países BRICS”, disse à revista Foreign Policy o analista Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.
Asli Aydintasbas, do think tank Brookings, compartilha dessa visão. Segundo ele, o distanciamento entre alguns países é a maior ameaça ao objetivo não apenas de Moscou, mas também de Beijing. “Não é um bloco coeso, mas é uma mensagem coesa, sobre o desejo de uma ordem global alternativa, e vem de economias consideráveis”, declarou ele à Foreign Policy.