Enterros ‘rápidos’ na Nicarágua geram dúvidas sobre número de infectados

Governo nega gravidade da doença, mas aumentam casos de mortos com sintomas semelhantes aos do coronavírus
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Médicos e familiares de supostas vítimas do coronavírus acusam o governo da Nicarágua de negar diagnóstico da doença para ocultar sua disseminação. As acusações juntam-se à notória resistência do país em adotar medidas para impedir o contágio. A informação é da agência de notícias Associated Press.

Os enterros das supostas vítimas ocorrem de maneira rápida, em até duas horas, aponta uma médica ouvida pela reportagem. Segundo ela, todos considerados suspeitos e aqueles que morreram por uma pneumonia considerada atípica são enterrados imediatamente.

As autoridades afirmam que o país de 6,5 milhões de habitantes registrou apenas 16 casos do coronavírus e cinco mortes desde 19 de março. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), que compila informações enviadas pelas nações, os números não mudaram desde então.

Por outro lado, a ONG Observatório Cidadão diz já ter identificado mais de mil suspeitos de Covid-19 até o último sábado (9).

Está cada vez mais difícil para o presidente Daniel Ortega negar a disseminação do vírus no país. Na cidade de Chinandega, homens em trajes de proteção carregando caixões em caminhonetes é cena cada vez mais comum.

Enterros 'rápidos' na Nicarágua geram dúvidas sobre número de infectados
Vista da cidade de Chinandega, no oeste da Nicarágua (Foto: Wikimedia Commons)

Medo

Os diagnósticos de pacientes suspeitos de terem sido infectados pelo vírus são feitos por meio da identificação dos sintomas e de radiografia dos pulmões. Os testes para o vírus são rigorosamente controlados pelo Ministério da Saúde e difíceis de obter.

Familiares de supostas vítimas do coronavírus dizem não poder fazer perguntas sobre a morte de seus parentes. O medo de represália é constante.

Há relatos de famílias que, ao chegar nos hospitais para visitas, são avisados das mortes e de que o familiar já está sendo enterrado. Os profissionais de saúde recomendam que os parentes façam quarentena, mas não confirmam o óbito pela doença.

Médicos também temem falar publicamente sobre o assunto. Mas, de acordo com Róger Pasquier, presidente da Associação Nicaraguense de Anestesiologia, colegas afirmam que há grande número de doentes nas cidades de Manágua, Masaya, Matagalpa e Chinandega.

Profissionais de saúde estão também entre os infectados, já que faltam equipamentos de proteção. Mais do que isso, até o último dia 29, estava proibido o uso de máscaras, inclusive dentro dos hospitais.

Sem proteção

Por determinação de Ortega, a Nicarágua continua a viver como antes da pandemia. Empresas e escritórios governamentais funcionam normalmente e o governo tem promovido eventos esportivos e outras reuniões em massa.

As aulas nas escolas públicas não foram suspensas. Apenas instituições particulares foram autorizadas a ministrar aulas à distância.

Policiais e apoiadores do governo chegaram a deter jornalistas fora de um hospital na capital Manágua e em um cemitério em Chinandega, no oeste do país, na semana passada.

Enquanto isso, países vizinhos como a Costa Rica tomaram medidas rigorosas contra a disseminação do vírus.

O país tem 780 infectados e sete mortes. Não há mais ocorrência de transmissão comunitária, ou aquela em que não é possível determinar onde o doente foi contaminado,

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