Como Kim Jong-un transformou smartphones em uma poderosa ferramenta de controle social

Aplicativos de banco digital, streaming, saúde e transporte revelam uma sociedade cada vez mais conectada em Pyongyang, mas sob rígida vigilância do regime norte-coreano

A imagem da Coreia do Norte como um país completamente desconectado do mundo começa a mostrar nuances inesperadas. Embora a população continue sem acesso à internet global, os smartphones se tornaram parte da rotina de uma parcela crescente dos norte-coreanos, especialmente entre a elite de Pyongyang. As informações são do Washington Post.

Uma análise de dois dos modelos mais recentes de celulares disponíveis no país revela uma realidade digital surpreendentemente sofisticada. Aplicativos de banco online, streaming de vídeo, transporte por aplicativo, monitoramento da saúde feminina e entrega de medicamentos já fazem parte do cotidiano de muitos usuários.

Mas essa modernização tecnológica tem um objetivo que vai além da conveniência: ampliar a capacidade de monitoramento e controle do regime liderado por Kim Jong-un.

Homem usa smartphone em frente ao Palácio Memorial Kumsusan, em Pyongyang, na Coreia do Norte (Foto: WikiCommons)
Smartphones viram ferramenta de vigilância estatal

Os aparelhos operam em uma intranet nacional, completamente separada da internet utilizada no restante do mundo. Isso significa que os usuários podem acessar centenas de aplicativos e serviços digitais, mas apenas dentro de um ambiente controlado pelo governo.

Segundo especialistas que estudam a economia norte-coreana, a digitalização permite ao Estado acompanhar com mais precisão transações financeiras, hábitos de consumo e movimentação de recursos.

Os aplicativos de carteira digital, por exemplo, estão substituindo gradualmente o uso de dinheiro em espécie. Com isso, o governo ganha mais capacidade para monitorar pagamentos, controlar a circulação de moeda e fiscalizar atividades econômicas.

O sistema também facilita iniciativas antigas do regime para combater desvios de recursos e aumentar o controle sobre a distribuição de alimentos.

Banco digital, QR Code e compras online

Os smartphones permitem realizar pagamentos eletrônicos, transferências financeiras e recargas de contas bancárias.

Em Pyongyang, os pagamentos por QR Code já se tornaram comuns. Moradores utilizam os celulares para pagar transporte público, táxis, delivery de comida e até ingressos de cinema.

Os aplicativos aceitam tanto o won norte-coreano quanto moedas estrangeiras, especialmente dólar e yuan chinês, consideradas mais estáveis pela população.

Streaming estatal oferece filmes e séries

O entretenimento digital também está presente na rotina dos usuários.

O aplicativo Manbang funciona como uma espécie de Netflix norte-coreana, oferecendo programação sob demanda e transmissão contínua de conteúdos aprovados pelo governo.

O catálogo inclui produções nacionais e filmes estrangeiros cuidadosamente selecionados. Entre eles estão animações populares da Disney, como “Aladdin“, “Frozen“, “Moana“, “Pinóquio” e “A Pequena Sereia“.

Especialistas acreditam que a oferta de conteúdos autorizados busca reduzir o interesse por produções estrangeiras contrabandeadas, especialmente dramas sul-coreanos, considerados uma ameaça ideológica pelo regime.

Aplicativos de saúde e beleza ganham espaço

Outro setor em expansão é o dos aplicativos voltados para saúde e bem-estar.

Uma plataforma chamada “A Idade de uma Mulher” (em tradução livre) oferece informações sobre ciclo menstrual, exercícios físicos, maquiagem, cuidados com a pele e saúde feminina.

O aplicativo traz orientações práticas de beleza e higiene, além de recomendações médicas e conteúdos educativos direcionados às mulheres.

Delivery de medicamentos chega aos celulares

A digitalização também alcançou o setor farmacêutico.

Usuários podem encomendar medicamentos diretamente pelo smartphone e receber os produtos em casa. O sistema promete acesso a milhares de remédios produzidos localmente ou importados.

Além de facilitar compras, especialistas apontam que a ferramenta também permite ao governo rastrear com mais eficiência o consumo e a distribuição de medicamentos.

Elite de Pyongyang concentra benefícios

Apesar dos avanços tecnológicos, o acesso aos smartphones continua restrito. Os aparelhos custam cerca de US$ 750 (cerca de R$ 3,8 mil), valor extremamente elevado para os padrões econômicos do país. Por isso, seu uso permanece concentrado entre as classes mais favorecidas da capital.

Pesquisadores estimam que a Coreia do Norte tenha mais de 6,3 milhões de linhas móveis ativas para uma população de aproximadamente 26 milhões de habitantes.

A expansão da rede 4G, o crescimento da indústria local de software e a presença de dezenas de marcas nacionais de celulares demonstram que o regime aposta na tecnologia como parte de sua estratégia de modernização.

Modernização sem liberdade digital

À primeira vista, os smartphones norte-coreanos lembram os aparelhos utilizados em qualquer parte do mundo. Eles oferecem serviços bancários, entretenimento, transporte e compras online.

A diferença está no alcance dessa conectividade. Enquanto usuários de outros países acessam uma internet aberta, os norte-coreanos permanecem confinados a um ecossistema digital totalmente supervisionado pelo Estado.

O avanço tecnológico promovido por Kim Jong-un não representa uma abertura ao mundo exterior. Pelo contrário: mostra como a tecnologia pode ser usada simultaneamente para oferecer conveniência e fortalecer mecanismos de controle social.

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