Cerca de seis milhões de pessoas retornaram ao Afeganistão nos últimos três anos, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). O movimento ganhou força com a intensificação das deportações de afegãos pelo Paquistão e pelo Irã, países que abrigaram milhões de pessoas que deixaram o Afeganistão ao longo das últimas décadas. As informações são da BBC.
O número foi apresentado por Charlie Goodlake, porta-voz do ACNUR no Afeganistão, durante uma visita à região de Torkham, principal passagem entre o Paquistão e o território afegão.
“Em pouco menos de três anos, vimos seis milhões de pessoas, uma população do tamanho de um pequeno país, retornar ao Afeganistão”, afirmou.
Somente em 2026, mais de um milhão de pessoas já foram obrigadas a deixar o Paquistão ou o Irã e retornar ao território afegão.

Retorno forçado
A movimentação ocorre principalmente porque Paquistão e Irã ampliaram as medidas contra imigrantes afegãos sem documentação regular.
O Paquistão também passou a atingir pessoas que possuem documentos de registro. Segundo a reportagem, o governo paquistanês declarou publicamente que o comprovante de registro não garante que um afegão esteja protegido contra a deportação.
A política de Islamabad já havia provocado grandes movimentos de retorno de afegãos em anos anteriores. Em 2024, por exemplo, o Paquistão anunciou uma segunda fase de deportações que poderia atingir mais de 800 mil pessoas. O país havia iniciado o processo de expulsão em 2023.
A situação também envolve afegãos considerados vulneráveis. O governo paquistanês informou que 16 mil pessoas receberam uma isenção temporária da deportação por razões humanitárias. Estimativas citadas pela BBC apontam, porém, que até 250 mil afegãos no país podem estar expostos a riscos graves em caso de retorno.
Pessoas que nunca viveram no país
Entre os que atravessam a fronteira estão pessoas que deixaram o Afeganistão há décadas.
Sarwar, entrevistado pela BBC, deixou o país há 45 anos, durante a invasão soviética. A maioria de seus irmãos nasceu no Paquistão.
Nazia, de 35 anos, nasceu no Paquistão e nunca havia vivido no Afeganistão. Mesmo assim, foi obrigada a retornar ao país junto com dois de seus filhos.
A família dela está entre as milhares que chegam a Torkham carregando os poucos pertences que conseguiram levar.
A passagem de fronteira, conhecida como “Ponto Zero”, concentra estruturas provisórias instaladas para receber os retornados. Muitos chegam sem moradia, trabalho ou recursos financeiros.
Crise humanitária
O retorno ocorre em um país que já enfrenta uma das maiores crises humanitárias do mundo. A ONU estima que 21,9 milhões de pessoas no Afeganistão precisarão de assistência humanitária em 2026. O número corresponde a quase metade da população do país.
O UNICEF também informou que aproximadamente um milhão de crianças enfrentam desnutrição em nível considerado de risco de vida.
A redução da ajuda internacional aumenta a pressão sobre os serviços disponíveis para os retornados. Segundo o ACNUR, as estruturas próximas à fronteira oferecem abrigo temporário para pessoas que chegam sem ter para onde ir.
A situação humanitária do Afeganistão já havia sido agravada pelo aumento das deportações de países vizinhos. Em agosto, A Referência mostrou que o país registrava aumento das necessidades de assistência enquanto enfrentava a redução dos recursos destinados à ajuda internacional.
Mulheres e meninas
O retorno também coloca mulheres e meninas diante das regras impostas pelo Taleban desde a retomada do poder, em agosto de 2021.
Meninas estão impedidas de frequentar o ensino secundário e mulheres enfrentam restrições ao trabalho e à participação na vida pública.
Em abril, o UNICEF alertou que o Afeganistão poderá perder até 25 mil profissionais dos setores de educação e saúde até 2030 em razão das restrições impostas às mulheres. O relatório apontou que até 20 mil professoras e 5,4 mil profissionais de saúde podem deixar de atuar no período.
O tema também foi abordado por A Referência em junho, quando representantes talibãs participaram de reuniões com autoridades europeias para discutir migração e repatriação.
Ex-funcionários
Entre os retornados estão ainda ex-funcionários do governo afegão e integrantes das antigas forças de segurança.
Um ex-segurança entrevistado pela BBC afirmou que foi deportado primeiro do Irã e depois do Paquistão. Ele declarou que não confia na anistia anunciada pelo Talibã após a retomada do poder porque antigos colegas teriam sido mortos.
Segundo o homem, seu caso havia sido registrado pela ONU, mas ele foi deportado antes de conseguir ser transferido para outro país.
A situação é diferente da promessa feita pelo Talibã após a retomada de Cabul. O grupo anunciou uma anistia para antigos funcionários públicos e integrantes das forças de segurança e afirmou que eles poderiam retornar ao trabalho.
Pressão sobre o Taleban
O governo Talibã enfrenta o retorno de milhões de pessoas enquanto continua submetido a sanções internacionais e permanece isolado diplomaticamente em grande parte do Ocidente.
Até agosto de 2026, somente a Rússia havia reconhecido formalmente o governo talibã. Ao mesmo tempo, Cabul ampliou relações com países como China, Índia e integrantes da Ásia Central.
O ministro das Relações Exteriores talibã, Amir Khan Muttaqi, afirmou que o governo precisa de ajuda para lidar com o retorno da população, mas disse que a chegada dos afegãos poderá beneficiar o país no longo prazo.
O governo também mantém a posição de que questões como a educação das meninas são assuntos internos do Afeganistão.
A política do Talibã em relação às mulheres continua sendo um dos principais pontos de tensão nas relações internacionais do país. Em fevereiro, A Referência publicou uma reportagem sobre o novo código penal imposto pelo regime, que estabeleceu punições diferentes para agressões contra mulheres e maus-tratos a animais.
Um novo começo
Nas áreas de fronteira, o retorno representa uma mudança imediata para famílias que passaram anos ou décadas fora do Afeganistão.
Algumas pessoas voltam depois de uma vida inteira no Paquistão ou no Irã. Outras, como Nazia, chegam a um país onde nunca viveram.
Sem moradia e recursos suficientes para começar novamente, milhões de pessoas precisam reconstruir suas vidas enquanto o Afeganistão enfrenta uma crise humanitária, econômica e de assistência.
O ACNUR defende que os retornos sejam voluntários, seguros e dignos. No entanto, o fluxo de pessoas deportadas pelos países vizinhos continua aumentando.