A produção de ópio voltou a crescer no Afeganistão, apesar da proibição imposta pelo Taleban em 2022. Em apenas um ano, o volume estimado da droga aumentou cinco vezes, enquanto a área dedicada ao cultivo da papoula cresceu 330%, indicando que a política de repressão do regime perdeu força diante das dificuldades econômicas enfrentadas pela população rural. As informações são da revista The Diplomat.
Os dados fazem parte do levantamento de 2026 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), divulgado em 29 de outubro. A área cultivada passou de aproximadamente 10 mil hectares, em 2025, para mais de 43 mil hectares em 2026. A produção estimada saltou de cerca de 300 toneladas para quase 1,5 mil toneladas.

Embora os números permaneçam muito abaixo dos registrados antes da proibição, representam a maior recuperação desde que o Taleban determinou o fim do cultivo de papoula e da produção de narcóticos no país.
A retomada também revela os limites de uma estratégia baseada principalmente na repressão, sem oferecer condições econômicas para que os agricultores substituam uma atividade altamente lucrativa por culturas legais.
A análise da The Diplomat aponta que a recuperação do cultivo está relacionada à pobreza, à demanda internacional por opiáceos e à capacidade dos agricultores de encontrar maneiras de contornar a fiscalização.
O problema deixou de estar concentrado nas tradicionais regiões produtoras do sudoeste e passou a avançar principalmente pelo nordeste do país.
Cultivo migra para regiões menos fiscalizadas
O levantamento da ONU identificou plantações em 16 das 34 províncias afegãs, cinco a mais do que no ano anterior. A principal mudança está na concentração geográfica: o nordeste responde por aproximadamente 74% da área cultivada.
As províncias de Badakhshan e Takhar tornaram-se os principais centros de produção. Somente Badakhshan concentra cerca de 29,5 mil hectares de papoula, aproximadamente 68% do total nacional.
A expansão nessa região também representa um desafio de segurança. Badakhshan faz fronteira com o Tajiquistão, país que integra uma das principais rotas utilizadas pelo narcotráfico para transportar drogas afegãs em direção à Ásia Central, à Rússia e à Europa.

O deslocamento das plantações dificulta a fiscalização. Segundo o UNODC, agricultores passaram a esconder pequenos campos de papoula em meio a plantações de cereais, utilizar terrenos cercados por muros e alternar os períodos de plantio e colheita para evitar a identificação pelas autoridades.
No sudoeste, onde tradicionalmente se concentrava a produção, também houve recuperação. As províncias de Helmand e Kandahar registraram aumentos expressivos no cultivo.
Pobreza alimenta mercado ilegal
A principal explicação para a retomada está na diferença de rentabilidade entre o ópio e as culturas agrícolas legais.
Em 2023, um hectare de papoula proporcionava ao agricultor aproximadamente US$ 10 mil, enquanto a mesma área dedicada ao trigo gerava pouco mais de US$ 770, segundo dados do UNODC citados pela agência France-Presse (AFP).
A diferença ajuda a explicar por que agricultores continuam arriscando confrontos com as forças do Taleban, mesmo diante da proibição e da destruição de plantações.
Em Badakhshan, confrontos entre agricultores e forças de segurança deixaram dois mortos em maio de 2026, durante operações de erradicação de campos de papoula.
A situação econômica do país agrava o problema. O Afeganistão enfrenta desemprego, redução da assistência internacional, dificuldades de acesso ao sistema financeiro e sucessivas crises climáticas. A situação é agravada pelo retorno de milhões de afegãos que estavam refugiados em países vizinhos.
O preço do ópio permanece elevado. Em 2026, um quilo custava aproximadamente US$ 500, contra menos de US$ 100 antes da proibição. A comercialização gerou cerca de US$ 525 milhões para os comerciantes de primeiro nível no país, segundo o levantamento da ONU.
A receita representa um incentivo adicional para a retomada do cultivo, mesmo com o risco de punições.
Proibição não desmontou redes de tráfico
A retomada também expõe uma fragilidade da política antidrogas do Taleban: a destruição de plantações não significa necessariamente o desmantelamento das estruturas responsáveis pelo processamento, armazenamento e transporte das substâncias.
O regime afirma ter erradicado 22 mil hectares de papoula em 2026. Mesmo assim, a área cultivada aumentou significativamente. A capacidade de fiscalização também é questionada diante da expansão das plantações em regiões onde o controle estatal é mais limitado.
A análise de Shanthie Mariet D’Souza publicada pela The Diplomat levanta dúvidas sobre possíveis conexões entre integrantes do Taleban, intermediários comerciais e redes de contrabando que operam na fronteira com o Paquistão.
O sistema informal de transferências financeiras conhecido como hawala, utilizado em diferentes partes da Ásia e do Oriente Médio, também dificulta o rastreamento dos recursos movimentados pelo comércio ilegal.
O problema não se limita ao Afeganistão. A retomada da produção pode alimentar rotas internacionais de heroína e fortalecer organizações criminosas que operam entre o território afegão, o Paquistão e os países da Ásia Central.
Estoques diminuem e Europa pode sentir os efeitos
A recuperação da produção acontece enquanto os estoques acumulados antes da proibição começam a diminuir. Desde 2022, comerciantes e intermediários utilizaram reservas antigas para manter o abastecimento dos mercados internacionais, mesmo com a queda do cultivo.
A ONU observa sinais de redução da disponibilidade de heroína nos mercados europeus. Com a demanda ainda elevada e a oferta pressionada, a retomada das plantações afegãs pode alterar novamente o fluxo internacional de opiáceos.
O Afeganistão foi durante décadas o principal fornecedor mundial de ópio ilegal. Antes da proibição, respondia por aproximadamente 80% da oferta global. A redução da produção levou Mianmar a assumir a liderança entre os países produtores.
A situação já havia sido abordada por A Referência em novembro de 2025, na reportagem Menos ópio, mais metanfetamina: o novo império das drogas no Afeganistão. Na ocasião, a análise destacava que a redução das plantações estava acompanhada pelo crescimento do tráfico de drogas sintéticas, especialmente metanfetamina.
Em março de 2025, outra reportagem do site, Preço do ópio se aproxima de pico histórico no Afeganistão e beneficia sindicatos do crime, mostrou como a escassez provocada pela proibição elevou os preços e favoreceu comerciantes e organizações criminosas que controlavam os estoques.
Os novos números indicam que a estratégia não conseguiu eliminar as estruturas econômicas que sustentam o mercado ilegal.