Rússia quer levar 114 mil pessoas para territórios ocupados da Ucrânia

A Rússia planeja reassentar cerca de 114 mil pessoas nos territórios ucranianos ocupados ao longo dos próximos 20 anos, segundo documentos e informações obtidas pela imprensa independente. O projeto prevê a transferência de cidadãos russos para regiões ocupadas desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. As informações são do site investigativo Meduza.

A reportagem da cooperativa independente de jornalistas Bereg, repercutida pelo Meduza, tomou Melitopol, na região de Zaporizhzhia, como estudo de caso para mostrar os efeitos desse processo sobre a população local. A cidade foi ocupada por tropas russas poucos dias após o início da invasão, em 25 de fevereiro de 2022.

Melitopol é uma cidade da Ucrânia, situada no Oblast de Zaporizhzhia (Foto: WikiCommons)
Plano russo

De acordo com informações publicadas pela imprensa russa, as autoridades planejam atrair e reassentar aproximadamente 114 mil russos nos chamados “novos territórios” ao longo de duas décadas.

A política ocorre em áreas cuja população ucraniana passou por deslocamentos, deportações, detenções e repressão desde a ocupação russa. Paralelamente, Moscou promove medidas destinadas a integrar os territórios ocupados ao sistema político, administrativo, econômico e social da Federação Russa.

Melitopol é um dos principais exemplos desse processo. A cidade, que tinha uma população predominantemente ucraniana antes da invasão, passou a receber novos moradores vindos de diferentes regiões da Rússia.

Cidade transformada

O relato de Lyudmila Plachkova, de 34 anos, mostra a transformação ocorrida em Melitopol após a ocupação. Nascida e criada na cidade, ela deixou a região e fugiu para a Bulgária.

Segundo Lyudmila, empresários e jovens começaram a deixar Melitopol após a chegada das tropas russas. Ao mesmo tempo, novos moradores passaram a ocupar a cidade.

Ela relata ter visto carros com placas de Moscou e Krasnodar e afirma que as ruas passaram a ser ocupadas por pessoas que não tinham vivido anteriormente em Melitopol.

“Você caminhava pelas ruas e percebia que aquela já não era mais a sua cidade”, afirmou.

A mudança demográfica ocorreu paralelamente à adoção de símbolos e estruturas russas. Bandeiras russas passaram a ocupar espaços públicos, enquanto moradores eram pressionados a aceitar a cidadania russa.

Repressão

Para os moradores que permaneceram, a ocupação não significou apenas uma mudança administrativa. Segundo relatos reunidos pela Bereg, também houve detenções, desaparecimentos, tortura e deportações.

Lyudmila afirma que seus pais, Tatyana e Oleg, permaneceram em Melitopol porque acreditavam que a ocupação seria temporária. Em setembro de 2023, agentes do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) invadiram o apartamento do casal e os levaram.

A mãe de Lyudmila teria sido torturada durante a detenção. Segundo o relato, ela permaneceu presa em condições precárias e posteriormente foi internada em um hospital de Melitopol em estado crítico.

Tatyana morreu em 23 de maio de 2024. O paradeiro de Oleg continua desconhecido.

Resistência

Antes de deixar Melitopol, Lyudmila participou de manifestações pró-Ucrânia realizadas na cidade nos primeiros meses da invasão.

Os protestos ocorreram em março e abril de 2022, quando moradores ainda demonstravam publicamente oposição à presença das tropas russas.

Com o avanço da ocupação, porém, a repressão e a presença militar russa reduziram o espaço para manifestações abertas. O relato também descreve o surgimento de novas estruturas administrativas e econômicas vinculadas à Rússia.

A resistência passou a assumir formas menos visíveis. O movimento ucraniano Zla Mavka, citado pela Bereg, é um dos grupos envolvidos em ações de resistência não violenta nos territórios ocupados.

Mudança demográfica

O reassentamento planejado de russos ocorre em um contexto mais amplo de transformação demográfica dos territórios ocupados.

A reportagem descreve uma combinação de fatores: saída de moradores ucranianos, chegada de cidadãos russos, imposição da cidadania russa e incorporação das regiões ocupadas às estruturas da Federação Russa.

Para os moradores que deixaram essas cidades, a transformação não é apenas territorial. Ela altera a composição social dos lugares onde nasceram e viveram.

O caso de Melitopol ilustra esse processo. A cidade ocupada tornou-se, segundo os relatos reunidos pela Bereg, um espaço no qual antigos moradores convivem com novos habitantes vindos da Rússia e com instituições impostas pelas autoridades de ocupação.

Desaparecidos

O relato também chama atenção para o número de civis cujo paradeiro permanece desconhecido.

Lyudmila afirma conhecer pessoalmente seis casos de sequestro, tortura ou deportação arbitrária de civis somente em Melitopol. Segundo ela, outras pessoas permanecem detidas sem acusação formal e sem contato com familiares.

“Algumas desapareceram. Outras foram condenadas. E são pessoas que conhecemos. E nós somos pessoas comuns”, afirmou.

O caso de seu pai permanece sem solução. Segundo Lyudmila, o FSB nega ter informações sobre ele, enquanto os centros de detenção também afirmam que ele não está sob custódia.

Ocupação

O plano de reassentamento de 114 mil pessoas acrescenta uma dimensão demográfica à estratégia russa nos territórios ocupados da Ucrânia.

Além do controle militar e administrativo, a transferência de população pode alterar a composição dessas regiões ao longo do tempo. Para os ucranianos que deixaram suas cidades ou permanecem sob ocupação, a questão envolve também o futuro de suas comunidades.

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