A infraestrutura mais importante da economia digital está escondida no fundo dos oceanos. Cabos submarinos transportam entre 95% e 99% do tráfego mundial de internet e sustentam cerca de US$ 10 trilhões em transações financeiras todos os dias. Dutos também transportam petróleo e gás, enquanto novas disputas envolvem a exploração de minerais no leito marinho. As informações são do The Guardian.
A vulnerabilidade dessa estrutura ficou evidente no fim de 2024, quando o petroleiro Eagle S, ligado à chamada frota sombra que transporta petróleo russo sob sanções, foi associado ao rompimento de cabos de energia e comunicação no Báltico. O navio atingiu cinco cabos e chegou a ficar próximo de outras infraestruturas críticas, incluindo o Balticconnector, que transporta gás entre Finlândia e Estônia.
O episódio mostrou um problema difícil de resolver: identificar um possível ato deliberado e determinar se ele deve ser tratado como acidente, sabotagem ou agressão contra um Estado. Cabos ficam em áreas marítimas extensas, muitas vezes fora das águas territoriais dos países, e a capacidade de monitoramento e proteção é limitada.

A questão já entrou no campo da segurança internacional. A Referência mostrou anteriormente que os cabos submarinos passaram a ser considerados ativos estratégicos porque sua interrupção pode afetar comunicações, mercados financeiros, governos e cadeias logísticas.
Agora, a disputa ganhou outro componente: grandes empresas de tecnologia estão construindo suas próprias redes. Google, Meta, Microsoft e Amazon planejam dezenas de cabos submarinos para ampliar suas estruturas globais de transmissão de dados. O cabo Waterworth, da Meta, terá cerca de 50 mil quilômetros e deverá conectar diferentes regiões do planeta.
A concentração dessa infraestrutura nas mãos de empresas privadas cria uma nova questão geopolítica: governos dependem cada vez mais de redes que não controlam diretamente. Pontos de conexão como Irlanda, Japão e costa leste dos Estados Unidos ganham importância porque uma interrupção localizada pode afetar grandes volumes de tráfego internacional. Cerca de 75% do tráfego de cabos transatlânticos passa por águas irlandesas.
O fundo do mar também está entrando na disputa por recursos. A Zona Clarion-Clipperton, no Pacífico, concentra grandes quantidades de nódulos minerais contendo níquel, cobre, cobalto, manganês e terras raras. A área não pertence a nenhum país e é administrada dentro do sistema estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Os Estados Unidos, porém, não ratificaram a convenção. Em 2025, o governo Donald Trump autorizou por ordem executiva a exploração de minerais em águas internacionais, abrindo uma disputa sobre os limites das regras internacionais para a mineração em águas profundas.
O resultado é a formação de um novo espaço de competição internacional. O mesmo ambiente que sustenta a internet, o comércio e parte do sistema energético mundial também concentra recursos minerais estratégicos e pode ser utilizado para operações de sabotagem.