Geografia explica mais a violência na América Latina do que cartéis, aponta estudo

Pesquisa sobre homicídios na Colômbia conclui que fatores como cultivo de coca, mineração ilegal e rotas do tráfico têm maior influência sobre a violência do que a simples presença de guerrilhas ou organizações criminosas

A geografia pode ser um fator mais importante do que a atuação de cartéis e guerrilhas para explicar os altos índices de homicídios na América Latina. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Crime Science, após analisar os padrões de violência em municípios da Colômbia entre 2010 e 2020. As informações são do The Conversation.

Os pesquisadores concluíram que características ambientais, como áreas de cultivo de coca, mineração de ouro e corredores de transporte usados pelo crime organizado, explicam melhor a distribuição dos homicídios do que a simples presença de grupos armados.

Crianças e adolescentes são alvo de recrutamento por grupos armados ilegais, como o ELN, em áreas marcadas pela ausência do Estado e pela disputa por rotas do narcotráfico (Foto: WikiCommons)

O levantamento comparou dados sobre violência com a atuação de organizações como as FARC, suas dissidências, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e diferentes redes do crime organizado. Apesar da influência desses grupos, os resultados indicam que o território onde atuam pesa mais do que sua presença isoladamente.

“Os fatores ambientais e geográficos foram preditores significativos das taxas de homicídio, independentemente da presença de grupos do crime organizado”, afirmam os autores do estudo.

Geografia da violência

Um dos principais achados foi que os maiores índices de homicídios não estavam necessariamente nas regiões com maior número de grupos armados.

Enquanto municípios do leste colombiano, onde há forte presença de organizações ilegais, registraram níveis relativamente baixos de violência, o corredor oeste concentrou as maiores taxas de homicídio. A região reúne áreas de cultivo de coca, mineração ilegal e importantes rotas de transporte utilizadas pelo narcotráfico.

Segundo os pesquisadores, esses elementos tornam determinados territórios mais valiosos para as organizações criminosas, aumentando as disputas pelo controle local.

Outro resultado importante foi o chamado “efeito de contágio”. As condições de um município influenciam diretamente os índices de violência dos municípios vizinhos, especialmente quando compartilham áreas produtoras de coca ou atividades de mineração.

Prisões não bastam

As conclusões colocam em xeque uma das principais estratégias de combate ao crime organizado adotadas nas últimas décadas: eliminar ou prender líderes das facções.

Casos emblemáticos, como a morte de Pablo Escobar, a captura de Joaquín “El Chapo” Guzmán e as operações contra comandantes das FARC, tiveram impacto sobre essas organizações, mas não eliminaram as condições que sustentam a violência.

De acordo com o estudo, quando um líder é retirado de circulação, outro grupo costuma assumir rapidamente o controle do território, mantendo as mesmas atividades criminosas.

Essa dinâmica também ajuda a explicar por que a violência continuou em diversas regiões da Colômbia mesmo após o acordo de paz firmado entre o governo colombiano e as FARC em 2016. Com a desmobilização da guerrilha, grupos rivais e facções dissidentes passaram a disputar os territórios antes controlados pela organização.

Mudança de estratégia

Os pesquisadores defendem que políticas públicas voltadas apenas para a repressão dos criminosos são insuficientes para reduzir a violência de forma duradoura.

Entre as medidas consideradas mais eficazes estão programas de substituição do cultivo de coca, criação de oportunidades econômicas para comunidades dependentes da mineração ilegal e ampliação da presença do Estado em áreas vulneráveis.

Para os autores, reduzir as oportunidades econômicas que alimentam o crime organizado pode produzir resultados mais consistentes do que concentrar esforços apenas na captura de líderes criminosos.

A equipe também pretende aplicar a mesma metodologia em outros países da região, especialmente no México e em nações da América Central, para verificar se o padrão identificado na Colômbia também se repete em outros contextos latino-americanos.

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