A censura de ‘Satluj‘, filme que retrata a trajetória do ativista sikh Jaswant Singh Khalra e as denúncias de abusos cometidos pelas forças de segurança durante um dos períodos mais violentos da história recente de Punjab, acabou produzindo um efeito contrário ao esperado pelas autoridades indianas. As informações são da NPR.
Impedido de c’hegar aos cinemas e posteriormente retirado de uma plataforma de streaming, o filme passou a ser exibido em templos, centros comunitários e espaços públicos de cidades e vilarejos do estado, enquanto cópias também começaram a circular pela internet e por aplicativos de mensagens.
Punjab, estado do norte da Índia e principal reduto da comunidade sikh no país, foi palco de uma violenta insurgência separatista nas décadas de 1980 e 1990.

A produção foi submetida à comissão indiana responsável pela classificação de filmes, mas seus realizadores afirmam que enfrentaram obstáculos durante quase quatro anos antes de conseguir disponibilizá-la ao público. Depois de finalmente chegar a uma plataforma de streaming em julho, Satluj foi retirado do catálogo dois dias após o lançamento. O governo indiano não divulgou oficialmente as razões para a censura, enquanto o Ministério da Informação e Radiodifusão não respondeu aos pedidos de entrevista da reportagem.
Filme retrata violência
Dirigido por Honey Trehan, ‘Satluj‘ conta a história de Jaswant Singh Khalra, ativista de direitos humanos que investigou desaparecimentos e mortes atribuídos às forças de segurança de Punjab durante a campanha contra militantes separatistas nas décadas de 1980 e 1990. Interpretado pelo ator e cantor Diljit Dosanjh, Khalra aparece na produção como alguém que decidiu documentar as denúncias de violência depois de perceber a dimensão dos abusos cometidos durante o conflito.
Utilizando registros municipais e de crematórios, Khalra reuniu informações sobre cerca de 2 mil jovens que, segundo sua investigação, haviam sido mortos pela polícia em seu distrito de origem, Amritsar. Posteriormente, levou suas denúncias ao Tribunal Superior de Punjab e ao Supremo Tribunal da Índia, argumentando que o número de mortos em todo o estado poderia chegar a 25 mil, embora representantes de organizações de direitos humanos considerem essa estimativa provavelmente exagerada.
Khalra desapareceu de sua casa em 1995, poucos meses depois de apresentar suas acusações. Seu corpo nunca foi encontrado. Anos mais tarde, um tribunal indiano condenou seis policiais pelo sequestro e assassinato do ativista, mas organizações de direitos humanos afirmam que a maior parte dos responsáveis pelos abusos cometidos durante o período permaneceu impune.
A história de Satluj está diretamente relacionada ao conflito que marcou Punjab durante décadas e que envolveu grupos separatistas sikhs e forças de segurança indianas. A violência ganhou uma nova dimensão em 1984, quando o Exército indiano invadiu o complexo do Templo Dourado, em Amritsar, um dos locais mais sagrados para os sikhs, para retirar militantes que haviam se refugiado no local. Meses depois, a então primeira-ministra Indira Gandhi foi assassinada por dois de seus guarda-costas sikhs.
Censura amplia reação
A decisão de impedir a circulação de Satluj não encerrou o interesse pela produção. Pelo contrário, grupos religiosos sikhs, organizações da sociedade civil, ativistas e partidos políticos passaram a organizar sessões em templos, centros comunitários, praças e vilarejos de Punjab, fazendo com que a obra alcançasse espectadores justamente por meio de iniciativas comunitárias.
Em diferentes localidades, moradores se reuniram para assistir ao filme em espaços religiosos, enquanto cópias não autorizadas passaram a circular por plataformas digitais e aplicativos de mensagens. O fenômeno transformou uma produção que enfrentava dificuldades para chegar ao público em um assunto de grande interesse dentro da comunidade sikh.
Para o sociólogo Sanjay Srivastava, da SOAS University of London, a reação está relacionada à percepção de que os acontecimentos retratados no filme continuam sem uma resolução definitiva. Segundo ele, a mobilização demonstra que existe um sentimento de que as denúncias de violência e abusos cometidos durante o período de insurgência ainda não foram plenamente enfrentadas pelas autoridades indianas.
A jornalista especializada em cinema Anna MM Vetticad também considera que a reação do governo demonstra a importância atribuída ao cinema como instrumento capaz de influenciar percepções políticas e sociais. Para ela, a interpretação de que Satluj poderia alimentar o separatismo não considera que o foco principal da produção está nas violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado e na trajetória de uma pessoa que acabou assassinada depois de investigá-las.
Temor separatista
A preocupação das autoridades indianas está relacionada ao histórico do movimento pela criação de um Estado independente para os sikhs, conhecido como Khalistan, que protagonizou uma violenta insurgência em Punjab durante as décadas de 1980 e 1990. Milhares de pessoas morreram durante os confrontos entre militantes e forças de segurança, enquanto parte da população sikh deixou a Índia e buscou refúgio principalmente em países como Estados Unidos e Canadá.
Jagmohan Singh Raju, secretário-geral do BJP, partido governante em Punjab, afirma que as autoridades temiam que a representação da violência policial em Satluj pudesse contribuir para reacender sentimentos separatistas. A questão ganhou ainda mais sensibilidade nos últimos anos devido às tensões entre Nova Délhi e setores da diáspora sikh em países ocidentais.
O governo indiano tem acusado repetidamente países como Canadá e Reino Unido de permitirem a atuação de separatistas sikhs em seus territórios. Em 2024, os Estados Unidos acusaram um agente de inteligência indiano de participar de uma conspiração para assassinar Gurpatwant Singh Pannun, um separatista sikh, em Nova York. No Canadá, autoridades também acusaram cidadãos indianos ligados à rede do criminoso Lawrence Bishnoi pelo assassinato do separatista Hardeep Singh Nijjar, morto em 2023.
Raju reconhece que um filme não transforma imediatamente espectadores em separatistas, mas argumenta que produções desse tipo poderiam contribuir para uma mudança gradual de percepção. Na avaliação dele, o impacto ocorreria principalmente no campo psicológico, com ideias apresentadas pelo filme podendo influenciar o público e ser posteriormente exploradas por grupos políticos.
Memória permanece
Entre os espectadores que participaram das exibições de Satluj estão pessoas que associam diretamente a própria história familiar aos acontecimentos retratados na produção. Um desses casos é o de Ranjit Singh Babbar, que tinha apenas 3 anos quando seu pai, o agricultor Sardar Atma Singh, foi detido pela polícia do distrito de Kapurthala, em Punjab, em 1990.
Babbar afirma que seu pai não tinha qualquer ligação com os militantes, mas que os policiais exigiram o equivalente a US$ 12 mil para libertá-lo. Segundo ele, a família vendeu terras e ouro para reunir o dinheiro exigido, mas, quando retornou com o resgate, recebeu a informação de que já era tarde demais para libertá-lo.
O corpo de Atma Singh nunca foi oficialmente entregue à família, segundo Babbar, que também afirma que o governo não emitiu uma certidão de óbito. Ele mantém consigo uma fotografia do pai, tirada quando era jovem, e diz que essa imagem se tornou a principal lembrança que possui dele.
Para Babbar, a trajetória de Jaswant Singh Khalra representava a possibilidade de que a democracia indiana pudesse oferecer respostas às famílias atingidas pela violência e pela atuação das forças de segurança. Por isso, ele considera que a censura de Satluj transmite uma mensagem oposta ao impedir que a história seja conhecida por um público mais amplo.