A União Africana (UA) rejeitou a interferência estrangeira no Sudão e criticou as tentativas de criação de governos rivais no país. A organização também busca um novo impulso diplomático para alcançar um cessar-fogo e retomar as negociações políticas após mais de três anos de guerra. As informações são do The New Arab.
A posição foi apresentada durante uma visita de dois dias de uma delegação do Conselho de Paz e Segurança da União Africana ao Sudão. O objetivo é ampliar a pressão pelo fim dos combates, facilitar a entrada de ajuda humanitária e recuperar o processo de transição política.
O diplomata argelino Mohamed Khaled, presidente rotativo do Conselho de Paz e Segurança da União Africana, apresentou a posição durante uma reunião com Abdel Fattah al-Burhan, comandante das Forças Armadas Sudanesas e presidente do Conselho Soberano.

O encontro ocorreu no palácio presidencial, em Cartum. Khaled afirmou que a interferência estrangeira contribui para alimentar o conflito e rejeitou iniciativas destinadas a criar estruturas políticas paralelas.
Segundo o Conselho Soberano sudanês, o diplomata defendeu o diálogo, a reconciliação nacional e um acordo político abrangente como caminhos para uma paz duradoura.
Sudão fragmentado
O conflito deixou o Sudão dividido entre áreas controladas por forças rivais. As Forças Armadas Sudanesas, lideradas por Burhan, recuperaram grande parte de Cartum e de áreas do centro do país. As Forças de Apoio Rápido (RSF, da sigla em inglês), grupo paramilitar que combate o Exército, continuam entrincheiradas em grandes áreas de Darfur.
Kordofan também se transformou em uma importante frente de batalha. A região possui relevância estratégica por conectar o centro do Sudão às áreas ocidentais e meridionais. Apesar das mudanças no campo de batalha, nenhum dos lados conseguiu obter uma vitória decisiva.
Governo rival
A RSF e seus aliados criaram a Aliança Fundadora do Sudão, conhecida como Tasis. A estrutura política funciona como alternativa às autoridades apoiadas pelos militares.
A União Africana tenta dialogar com representantes políticos ligados aos dois lados do conflito. Ao mesmo tempo, a organização rejeita uma eventual divisão formal do Sudão.
A estratégia representa um dos principais desafios para a diplomacia africana: negociar com forças rivais sem legitimar uma fragmentação definitiva do país.
Transição política
Durante a reunião com a delegação africana, Khaled também destacou a importância do retorno do governo apoiado pelos militares a Cartum.
Segundo ele, a retomada das atividades governamentais na capital pode contribuir para restaurar instituições estatais e serviços básicos.
O diplomata, porém, defendeu uma transição política mais inclusiva. A proposta é construir um consenso nacional que possa levar à formação de um governo constitucional escolhido por meio de eleições livres.
O primeiro-ministro Kamil Idris afirmou à delegação da União Africana que um diálogo nacional liderado pelo Sudão deverá começar em breve.
UA retorna
A visita ocorre enquanto a União Africana trabalha para restabelecer uma presença política permanente no Sudão.
A organização retirou seu pessoal de Cartum após a chegada dos combates à capital, em abril de 2023. Agora, pretende reabrir seu escritório de ligação na cidade.
O retorno pode permitir uma atuação mais direta da União Africana na mediação do conflito, depois de mais de três anos de esforços diplomáticos realizados principalmente à distância.
O Instituto de Estudos de Segurança classificou a volta como uma oportunidade limitada, mas real, para aumentar a pressão por um cessar-fogo e manter canais diretos com autoridades políticas e militares.
Desafio diplomático
A presença em Cartum, entretanto, também envolve riscos.
A União Africana precisará evitar a percepção de que está alinhada ao governo de Burhan por atuar na capital controlada pelas forças militares.
Uma mediação efetiva exigirá diálogo com diferentes grupos, incluindo a RSF, movimentos civis, sindicatos e outras forças políticas marginalizadas pelas facções armadas.
A organização defende um cessar-fogo imediato, acesso humanitário e um processo político inclusivo sob liderança africana.
Guerra sem fim
O Conselho de Paz e Segurança da União Africana apresentou um roteiro para encerrar o conflito em maio de 2023. Desde então, diferentes iniciativas diplomáticas fracassaram em interromper os combates.
Exército e RSF chegaram a compromissos em Jeddah, na Arábia Saudita, em maio de 2023, com medidas destinadas a proteger civis. Cessar-fogos temporários também foram anunciados, mas acabaram sendo rompidos.
Por que isso importa?
O Sudão vive um violento conflito civil que coloca frente a frente dois generais que comandam o país africano desde o golpe de Estado de 2021: Abdel Fattah al-Burhan, chefe das SAF, e Mohamed Hamdan “Hemedti” Daglo, à frente da milícia das RSF.
As tensões decorrem de divergências sobre a incorporação dos combatentes das RSF às Forças Armadas, o que levou a milícia a se insurgir. Hemedti tem entre 70 mil e cem mil homens sob seu comando, de acordo com a rede Deutsche Welle (DW), enquanto al-Burhan lidera um efetivo de cerca de 200 mil.
Embora as SAF sejam mais bem equipadas e em maior número, as RSF são igualmente bem treinadas, o que equilibra as ações. O balanço de forças apenas prolonga as hostilidades e a violência decorrente, com nenhum dos dois lados conseguindo se impor sobre o inimigo.
Desde que o conflito se espalhou, primeiro pela capital, depois por outras regiões, cerca de dez milhões de pessoas foram deslocadas dentro do país, com mais de dois milhões forçadas a cruzar as fronteiras para o exterior. A crise maciça deixou 25 milhões de pessoas necessitando de ajuda humanitária e proteção.
A terrível situação é agravada por uma grave escassez de suprimentos essenciais, já que as entregas de produtos comerciais e de ajuda humanitária foram fortemente restringidas pelos combates e pelos desafios de acesso ao território controlado pelas RSF.