Quanto custava comer na Tunísia antes da Primavera Árabe — e quanto custa hoje

Quase 16 anos depois da revolução que derrubou Ben Ali, produtos básicos ficaram muito mais caros. Tomate subiu 113%, frango 118% e óleo de cozinha 129%

Em dezembro de 2010, um vendedor ambulante chamado Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo em Sidi Bouzid, na Tunísia. O gesto desencadeou uma onda de protestos que derrubou o presidente Zine El Abidine Ben Ali e ajudou a iniciar a Primavera Árabe.

Entre os problemas que alimentavam a insatisfação estavam desemprego, corrupção, desigualdade e o aumento do custo de vida. Quase 16 anos depois, uma comparação dos preços dos alimentos mostra uma transformação concreta na vida dos tunisianos: comprar comida ficou muito mais caro.

Um levantamento publicado nesta terça-feira (1º) pela Al Jazeera comparou os preços de produtos básicos em 2010 com os valores atuais. O resultado mostra aumentos de três dígitos em diversos alimentos.

Mercado Central de Tunes (Marché Central de Tunis, historicamente conhecido como Fondouk El Ghala) (Foto: WikiCommons)
O mesmo dinheiro

A comparação mais simples ajuda a dimensionar a mudança. Segundo a reportagem o preço dos tomates aumentou 113% desde 2010. O frango ficou 118% mais caro e o óleo de cozinha subiu 129%.

Alguns produtos tiveram aumentos ainda maiores. O levantamento aponta alta de 268% para batatas e de 428% para cenouras. A carne bovina também acumulou forte valorização desde o período anterior à revolução.

A comparação é especialmente significativa porque são produtos presentes na alimentação cotidiana e que permitem visualizar a perda de poder de compra muito melhor do que um índice geral de inflação.

Inflação continua

O problema não ficou no passado. Os dados oficiais mostram que a pressão sobre os alimentos continua em 2026. Segundo o Instituto Nacional de Estatística da Tunísia (INS), os preços de alimentos e bebidas não alcoólicas estavam 6,6% mais altos em julho de 2026 do que no mesmo mês do ano anterior. Em junho, a alta havia sido de 7,1%.

A inflação geral do país ficou em 5,1% em julho, abaixo dos 5,3% registrados em junho. Mesmo com a desaceleração, os alimentos continuaram subindo mais rapidamente do que o índice geral de preços.

O quadro também aparece em levantamentos internacionais. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) publicado em agosto apontou que a inflação anual dos alimentos na Tunísia havia recuado para 6,6% em julho, mas continuava sendo pressionada principalmente pelos preços das carnes e das frutas frescas.

A moeda perdeu valor

A mudança nos preços também precisa ser observada junto à evolução do dinar tunisiano. Em 2010, antes da revolução, o dólar valia aproximadamente 1,47 dinar tunisiano. Atualmente, a cotação está próxima de 2,9 dinares por dólar, o que significa que a moeda perdeu uma parcela significativa de seu valor no período.

Isso afeta diretamente o custo dos produtos importados, já que importadores precisam de mais dinares para comprar a mesma quantidade de dólares.

A desvalorização, porém, não explica sozinha a disparada dos alimentos. Produção agrícola, custos de transporte, energia, disponibilidade de água e problemas de abastecimento também pesam sobre os preços.

A revolução não resolveu a economia

A Tunísia conseguiu realizar uma transição política que não se repetiu da mesma maneira em todos os países atingidos pela Primavera Árabe.

Ben Ali deixou o poder em janeiro de 2011, mas os problemas econômicos que ajudaram a alimentar os protestos permaneceram.

O país passou por anos de crescimento econômico fraco, desemprego elevado, dificuldades fiscais e aumento da dívida. Ao mesmo tempo, a agricultura sofreu com períodos de seca e escassez de água.

A crise econômica acabou se tornando parte permanente do cenário político tunisiano. Em julho deste ano, milhares de pessoas foram às ruas de Túnis para protestar contra o governo do presidente Kais Saied, cinco anos depois de ele suspender o Parlamento e concentrar poderes.

O problema da água

A pressão sobre os alimentos ocorre paralelamente a outra crise: a água. A Tunísia enfrenta anos de seca e queda nas reservas hídricas, situação que afeta diretamente a agricultura e aumenta a vulnerabilidade do país diante de choques nos preços dos alimentos.

Em agosto, o país também enfrentou problemas no abastecimento de água engarrafada, com falta do produto em estabelecimentos comerciais em meio a uma combinação de calor extremo, problemas de distribuição e pressão sobre a infraestrutura.

A escassez de recursos hídricos acrescenta uma nova dificuldade a uma economia que já depende de importações para determinados produtos básicos.

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