A Síria confirmou uma fuga em massa no campo de Al-Hol, no nordeste do país, após confrontos entre forças governamentais e combatentes curdos. Segundo o Ministério do Interior sírio, ao menos 133 brechas foram identificadas no perímetro da área desde que o governo assumiu o controle do local, em 21 de janeiro. As informações são da NBC News.
Al-Hol abrigava cerca de 23,5 mil pessoas suspeitas de ligação com o grupo extremista Estado Islâmico (EI). O local é maior campo de refugiados e deslocados internos na Síria, com cerca de 55 mil pessoas, sendo mais de 80% mulheres e crianças. De acordo com as autoridades, aproximadamente 70% dos residentes eram crianças, mulheres e idosos. A maioria era de sírios e iraquianos, mas também havia 6,5 mil estrangeiros de 44 nacionalidades.

As fugas ocorreram durante confrontos com as Forças Democráticas da Síria, grupo liderado por curdos e apoiado pelos Estados Unidos, que anteriormente controlava a região. Os combates cessaram após um cessar-fogo firmado no mês passado.
As autoridades afirmaram que as violações foram registradas ao longo de 17 quilômetros do perímetro do campo. Ainda não há um número oficial de quantas pessoas conseguiram escapar.
A situação reacendeu o alerta de segurança na região, marcada pela memória recente do avanço do Estado Islâmico, derrotado territorialmente em 2019, mas ainda considerado uma ameaça latente.
Quem são os moradores de Al-Hol
Apesar da forte vigilância, os residentes do campo não eram formalmente prisioneiros, e a maioria não respondia a acusações criminais. Eles permaneciam sob detenção de fato havia anos.
Muitas das mulheres eram esposas ou viúvas de combatentes do Estado Islâmico, acompanhadas de seus filhos. Segundo o governo sírio, essas pessoas não são consideradas criminosas apenas por laços familiares, mas necessitam de proteção e assistência humanitária.
Transferências e repatriações
Nas últimas semanas, centenas de moradores foram transferidos da província de Hassakeh para o campo de Akhtarin, na província de Aleppo. Outros foram repatriados ao Iraque.
Autoridades sírias afirmam que o esvaziamento de Al-Hol foi motivado por sua localização remota no deserto e pela proximidade de áreas onde o governo não exerce controle total.
Após a derrota do Estado Islâmico, cerca de 73 mil pessoas chegaram a viver no campo. Desde então, o número diminuiu gradualmente com a repatriação de estrangeiros por seus países de origem.
O Ministério das Relações Exteriores da Síria informou que mantém diálogo com governos estrangeiros para definir o destino dos cidadãos que ainda permanecem sob custódia no país.
Por que isso importa?
O EI passou por um processo de enfraquecimento que começou com a derrota da organização em seus dois principais redutos. No Iraque, o exército iraquiano retomou todos os territórios que o grupo dominava desde 2014. Já as FDS (Forças Democráticas Sírias), uma milícia curda apoiada pelos EUA, anunciaram em 2019 o fim do “califado” criado pela facão extremista na Síria.
Desde fevereiro de 2022, o EI sofreu diversos duros golpes, com três líderes da organização mortos em operações de combate ao terrorismo. O mais recente deles foi Abu al-Hussein al-Husseini al-Qurashi, morto em abril. O governo turco reivindicou a ação, embora a própria organização terrorista alegue que o comandante morreu em confronto com o Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), uma organização extremista associada à Al-Qaeda e listada pelo governo norte-americano como terrorista.
Ultimamente, porém, os EUA relatam um ressurgimento do grupo extremista que se concentra na Síria, onde novos seguidores são treinados para atuar como homens-bomba. Diante de tal cenário, dobraram em 2024 os ataques contra as forças aliadas de combate ao terrorismo, que ocorrem também no Iraque.
Mas o continente onde a facção mantém presença mais relevante é a África, através de afiliados locais. Um deles é o Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS), que ampliou sua área de atuação, com aumento de ataques no Mali, em Burkina Faso e no Níger. Ainda tenta alcançar a Nigéria para fins logísticos e de recrutamento, possivelmente em colaboração com o ISWAP” (Estado Islâmico da África Ocidental).
“Apesar do progresso feito no direcionamento de suas operações financeiras e quadros de liderança, a ameaça representada pelo Daesh (sigla árabe para se referir ao grupo) e suas afiliadas regionais permaneceu alta e dinâmica nas amplas áreas geográficas onde está presente”, diz relatório divulgado em agosto de 2023 pela ONU (Organização das Nações Unidas).