Desemprego e crise econômica azedam as redes sociais da China

Falta de oportunidades entre jovens, crise imobiliária e insegurança financeira alimentam publicações críticas e humor negro nas plataformas digitais chinesas

O pessimismo vem ganhando espaço nas redes sociais da China, apesar dos esforços do governo para promover uma imagem de confiança no futuro e de “energia positiva” na internet. Publicações sobre desemprego, salários baixos, crise imobiliária e dificuldades financeiras passaram a ocupar espaço crescente em plataformas como Bilibili, RedNote, Douyin (a versão local do TikTok) e Weibo. As informações são do The New York Times.

Um dos exemplos recentes é um vídeo publicado no Bilibili que apresenta, em tom quase sério, um guia para sobreviver em situação de rua. O conteúdo sugere dormir perto de latas de lixo, utilizar papelão para proteção contra a umidade e evitar câmeras de vigilância. O vídeo acumulou mais de seis milhões de visualizações e chegou ao segundo lugar entre os mais vistos da plataforma.

A situação econômica está entre os principais fatores associados ao aumento do pessimismo. A taxa oficial de desemprego entre os jovens chineses chegou a 17,9% em julho. Mais de 200 milhões de pessoas trabalham no chamado “emprego flexível”, categoria utilizada pelo governo para diferentes formas de trabalho temporário e informal.

Chineses checam celulares no metrô (Foto: WikiCommons)

No RedNote, uma hashtag que incentiva os usuários a controlar rigorosamente os gastos alcançou quase 120 milhões de visualizações. Publicações também relacionam o adiamento do casamento e da decisão de ter filhos às dificuldades econômicas enfrentadas pelos jovens.

Parte dos usuários transforma as dificuldades em humor negro. Outros utilizam publicações oficiais para fazer comentários sarcásticos ou inserir mensagens críticas ao governo. Um vídeo no Douyin que elogiava o Partido Comunista Chinês recebeu cerca de 41 mil comentários praticamente idênticos, muitos deles com emojis de rostos chorando.

Christian Göbel, professor de política chinesa contemporânea na Universidade de Viena, classificou esse comportamento como “amplificação subversiva”. Segundo ele, usuários aproveitam o alcance de contas governamentais e veículos estatais para subverter as mensagens originais.

O governo chinês mantém mecanismos de censura sobre as plataformas digitais. Em 2023, o Ministério da Segurança do Estado classificou como questão política e de segurança os esforços para “difamar a economia da China”. No ano seguinte, o órgão regulador da internet determinou que as plataformas reprimissem conteúdos que apresentassem o trabalho árduo e a educação como inúteis ou que disseminassem pessimismo considerado excessivo.

Em abril, o Ministério da Segurança do Estado também acusou uma organização estrangeira não identificada de financiar influenciadores que promoveriam uma postura de passividade entre jovens chineses. A reação nas redes sociais incluiu comentários relacionando o fenômeno à falta de empregos, aos baixos salários e às longas jornadas de trabalho.

Segundo Li Ying, conhecido pelo pseudônimo online “Professor Li” e responsável por uma conta que acompanha informações não censuradas sobre a China, houve neste ano um aumento expressivo de publicações pessimistas e críticas.

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