Finlândia quer mudar lei histórica para permitir armas nucleares no país

Proposta do governo busca alterar lei de 1987 para permitir presença de armas nucleares ligadas à defesa da aliança militar, em meio ao aumento das tensões com a Rússia

A Finlândia pretende suspender uma proibição histórica que impede a presença de armas nucleares em seu território. A mudança, proposta pelo governo, tem como objetivo alinhar o país de forma mais direta à estratégia de dissuasão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em um cenário de segurança considerado cada vez mais instável na Europa. As informações são da BBC.

O ministro da Defesa, Antti Hakkanen, afirmou que o ambiente de segurança europeu mudou “fundamental e significativamente” desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022. Segundo ele, a alteração legislativa permitiria que armas nucleares fossem transportadas, armazenadas ou mantidas no território finlandês caso estejam relacionadas à defesa militar do país.

Soldados das forças finlandesas durante exercícios militares (Foto: WikiCommons)

A legislação atual, baseada na Lei de Energia Nuclear de 1987, proíbe a importação, fabricação, posse e detonação de explosivos nucleares na Finlândia, inclusive em tempos de guerra. A proposta do governo prevê mudanças tanto nessa lei quanto no código penal do país.

A iniciativa ainda passará por consulta pública até 2 de abril antes de ser formalmente apresentada ao Parlamento. A coalizão governista de direita possui maioria legislativa, o que aumenta as chances de avanço da proposta.

Mudança após décadas de neutralidade

Durante décadas, a Finlândia manteve uma política de neutralidade militar. Essa posição foi abandonada após a invasão russa da Ucrânia, que levou o país a ingressar oficialmente na Otan em 2023.

A adesão foi vista como um revés estratégico para o presidente russo Vladimir Putin, crítico histórico da expansão da aliança militar em direção ao leste europeu. Em 2024, o país vizinho Suécia também se tornou membro da Otan.

A Finlândia possui uma fronteira de aproximadamente 1.340 quilômetros com a Rússia, a mais longa entre todos os países da União Europeia e da Otan. Autoridades finlandesas afirmam que essa proximidade geográfica aumenta a importância de fortalecer mecanismos de defesa e dissuasão.

Estratégia nuclear da Otan

A estratégia de dissuasão nuclear da Otan baseia-se no princípio da defesa coletiva, segundo o qual um ataque contra qualquer membro da aliança é considerado um ataque contra todos.

Como o bloco reúne potências nucleares, um eventual conflito direto com um país membro pode envolver o risco de resposta nuclear. Os Estados Unidos mantêm armas nucleares posicionadas em diversos países europeus no âmbito desse sistema de defesa compartilhada.

Desde a entrada da Finlândia na Otan, a aliança ampliou sua presença militar no Ártico, no Mar Báltico e no flanco oriental europeu.

Segurança na Europa

A proposta finlandesa surge em um momento de maior cooperação militar entre países europeus diante da guerra na Ucrânia e de um ambiente internacional marcado por instabilidade.

Nos últimos meses, diversos países da Otan registraram interrupções no tráfego aéreo após a detecção de drones sobre aeroportos e bases aéreas. Algumas autoridades europeias classificaram os episódios como parte de uma possível “guerra híbrida” atribuída à Rússia, acusação negada por Moscou.

Paralelamente, França e Alemanha anunciaram planos para aprofundar a cooperação com parceiros europeus na área de dissuasão nuclear.

O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, afirmou recentemente que a política de não estacionar tropas estrangeiras ou armas nucleares no território da Suécia poderia ser revista caso o país enfrentasse um cenário de segurança “completamente diferente”.

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