O ano de 2026 não trouxe a trégua esperada. Pelo contrário, ao virar do calendário, sete focos de guerras ativas continuam drenando recursos, causando crises humanitárias e mantendo a economia global em estado de alerta. Analistas internacionais descrevem o cenário como uma “policrise militar”, em que vários conflitos distintos simultâneos alimentam instabilidade e sofrimento de civis em larga escala, destacou o The Washington Post.
Dados de organizações de monitoramento de conflitos, como o The New Humanitarian, mostram que ataques com drones, combates convencionais e ofensivas insurgentes continuam a se intensificar em várias frentes, com civis pagando o preço mais alto.

A persistência simultânea de sete frentes, da Europa ao Oriente Médio, passando pela África e Sudeste Asiático, evidencia a falha da diplomacia internacional em concretizar soluções duradouras para conflitos que, em muitos casos, já se prolongam por anos. Agências humanitárias alertam que, além das mortes e feridos, o número de deslocados forçados globalmente deve continuar crescendo em 2026, com projeções apontando para aumentos significativos conforme conflitos se arrastam e direitos básicos são negados em zonas de combate.
Guerra na Ucrânia: combates intensos, diplomacia tensa
A guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou em fevereiro de 2022, segue como o principal foco de conflito na Europa, sem indícios claros de redução das hostilidades. De acordo com a Reuters, a Ucrânia tem lançado ataques diários com drones contra Moscou desde o início de 2026, uma aparente escalada que marca uma nova fase de combates e mostra a determinação de Kiev em atingir profundidades do território russo.
Em paralelo, diplomatas dos Estados Unidos e da Rússia estão planejando encontros de alto nível na Flórida para discutir possibilidades de paz, refletindo um reconhecimento tácito de que a guerra continua a provocar destruição maciça e instabilidade regional.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reafirmou que Kiev busca a paz em 2026, “mas não a qualquer preço”, rejeitando acordos que comprometam sua soberania ou deixem forças estrangeiras ocupando território ucraniano, detalhou a Reuters. Essa combinação de ofensivas militares intensificadas e negociações diplomáticas cautelosas define o conflito como uma guerra total cuja resolução ainda está distante.
Em meio a esse cenário, o boom da indústria de defesa da Rússia, impulsionado pela invasão da Ucrânia e pelo aumento recorde dos gastos militares, começou a dar sinais claros de desaceleração em 2025. Após dois anos de forte expansão, indicadores oficiais e análises independentes apontam limites estruturais e financeiros para a sustentação do atual modelo de crescimento baseado na economia de guerra.
Guerra Civil no Sudão: crise humanitária sem precedentes
No Sudão, o amplo conflito civil entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (RSF) mergulhou o país numa das piores crises humanitárias do mundo. Segundo dados recentes, a guerra que começou em 2023 resultou em mais de 150 mil mortes até o fim de 2025, com combates sangrentos em diversas regiões e grande parte da população enfrentando insegurança alimentar severa, descreveu a ANSA Brasil.
A cidade de El-Obeid, na região de Kordofan, tornou-se um símbolo da implosão social e política no Sudão, cercada por forças rebeldes que cortam suprimentos e deixam a população civil à mercê de bombardeios e doenças, informou o Le Monde. A crise de deslocados é igualmente grave: mais de 11,7 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, tornando-se refugiados em países vizinhos ou deslocados internos, o maior êxodo no mundo neste conflito.

Apesar de conferências internacionais em 2025 terem buscado impulsionar negociações de paz, a guerra no Sudão continua profundamente entrincheirada e com agravamento de fome, violência e colapso institucional, sem sinais de um cessar-fogo duradouro.
Conflitos em Gaza e Cisjordânia: paz frágil e violência persistente
No Oriente Médio, a situação em Gaza e na Cisjordânia permanece tensa mesmo após os cessar-fogo parciais que surgiram em 2025. Nas últimas semanas, operações militares e confrontos com grupos armados continuam, e restrições à ajuda humanitária por Israel têm agravado a situação de civis já devastados pela guerra anterior, de acordo com informações da Al Jazeera.
Reportagens recentes destacam que condições meteorológicas severas e vulnerabilidade generalizada continuam a afetar os mais feridos e deslocados em Gaza, evidenciando que, apesar de acordos temporários, o ciclo de violência e sofrimento segue em 2026. Em paralelo, o ataque de Israel a civis palestinos em Gaza no começo deste ano reforça que a população permanece sob constante risco mesmo sob um regime aparentemente de cessar-fogo, com consequências econômicas e sociais duradouras, informou a Reuters.

Entre Gaza e a Cisjordânia, a expansão de assentamentos israelenses e confrontos contínuos em áreas como Jenin também intensificam a insegurança e minam qualquer perspectiva imediata de paz duradoura, segundo relatório do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).
A expulsão ou restrição de várias ONGs humanitárias em 2026, denunciada por líderes da ONU e organizações de direitos humanos, ameaça deixar milhares de civis sem acesso a serviços básicos em um momento crítico, disse o Financial Times.
Além disso, a reconstrução de Gaza surge como um dos maiores desafios humanitários e políticos do século 21. Após meses de guerra entre Israel e Hamas, o enclave enfrenta um nível de destruição comparável ao de cidades europeias após a Segunda Guerra Mundial. Especialistas alertam que, sem planejamento realista e coordenação internacional, o processo pode se arrastar por décadas.
Guerra Civil em Mianmar: fronteiras do conflito em expansão
No Sudeste Asiático, Mianmar segue em guerra civil desde o golpe militar de 2021, com facções de resistência continuando intensos combates contra a junta militar em muitas províncias. Organizações internacionais estimam que mais de 3,6 milhões de pessoas já foram forçadas a fugir de suas casas devido aos confrontos, e a insegurança alimentar e a violência dirigida contra civis continuam a se agravar, descreveu o The New Humanitarian.
A fragmentação das forças rebeldes e a multiplicação de grupos armados tornaram o conflito mais complexo, com cada frente operando com estratégias e apoios distintos, resultando em uma guerra prolongada em um território vasto e de difícil controle centralizado.

O partido alinhado aos militares venceu de forma ampla a primeira etapa das eleições gerais em Mianmar, segundo dados divulgados pela comissão eleitoral indicada pela junta, segundo a NHK. Trata-se do primeiro processo eleitoral desde o golpe de 2021, apresentado pelos militares como parte de uma transição para o governo civil, mas amplamente questionado pela comunidade internacional, que aponta falta de legitimidade.
De acordo com os organizadores do pleito, a sigla governista garantiu 91 das 102 cadeiras em disputa na Câmara Baixa. A junta afirma que 52% do eleitorado participou da votação realizada em 28 de dezembro.
Instabilidade no Sahel: insurgências e governos em duelo
Na região do Sahel, especialmente em Mali, Burkina Faso e Níger, a violência insurgente continua a desafiar as forças governamentais. Grupos ligados ao Estado Islâmico no Grande Sahel (EIGS) e à Al Qaeda intensificam ataques contra soldados e civis, enquanto governos militares lutam para controlar vastas áreas rurais, segundo o The New Humanitarian.
A crise humanitária é agravada pela retirada de alguns países da jurisdição de instituições internacionais e pela falta de uma presença governamental forte e coordenada, criando um vácuo de poder explorado por milícias com diversas agendas, segundo informação das Nações Unidas Brasil.
A instabilidade tem implicações regionais profundas, pois fronteiras permeáveis facilitam o tráfico de armas e combatentes, e a insegurança alimentar atinge níveis críticos, com o Sahel figurando entre os pontos mais preocupantes para fome extrema conforme relatórios da ONU.
Conflito no leste do Congo: milícias continuam ativas
Na África Central, o leste da República Democrática do Congo (RDC) segue dominado por confrontos entre o Estado e grupos armados como grupo M23, apoiado por Ruanda. A ofensiva do M23 em 2025 resultou na captura de cidades-chave como Bukavu e Goma, intensificando o deslocamento de civis e rompendo qualquer estabilidade frágil que pudesse ter sido alcançada na região.
Esses grupos operam em meio a uma densa rede de milícias com interesses variados, muitas vezes ligadas ao controle de recursos naturais e rotas de contrabando. A incapacidade do Estado congolês de garantir segurança e serviços básicos em grandes áreas rurais significa que a violência se torna uma rotina cotidiana, com impactos profundos sobre o tecido social e econômico das comunidades locais.

O conflito tem raízes nas consequências do genocídio de 1994 em Ruanda e na disputa por riquezas minerais. Desde janeiro, a situação se agravou rapidamente, com os combatentes do M23 capturando as duas maiores cidades do leste congolês, resultando em milhares de mortes e deslocamento de centenas de milhares de pessoas.
A contínua atividade de milícias e o fracasso de sucessivas iniciativas de paz ressaltam que a crise no leste da RDC não é apenas um problema local, mas um desafio regional, com potenciais ramificações transfronteiriças para Ruanda, Burundi e Uganda.
Guerra Civil no Iêmen: instabilidade persistente no Oriente Médio
No Iêmen, a guerra civil que envolve os Houthis no norte e uma coalizão apoiada por países do Golfo no sul continua a alimentar confrontos intermitentes, mesmo quando algumas zonas veem períodos de menor intensidade. Observadores internacionais destacam que o conflito, agora em seu décimo ano, produziu uma das mais profundas catástrofes humanitárias do planeta, segundo o The New Humanitarian.
A tensão voltou a aumentar em dezembro após o avanço do Conselho de Transição do Sul (STC, da sigla em inglês), grupo separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, sobre áreas estratégicas no leste do país. Cerca de 20 mil soldados apoiados pela Arábia Saudita estão sendo concentrados na fronteira iemenita, enquanto crescem as pressões para que os separatistas recuem.
Apesar de cessar-fogo temporários e negociações fragmentadas, as trocas de fogo regulares e as tensões entre grupos rivais continuam a impedir a reconstrução e a pacificação do país. A crise sanitária, alimentar e de infraestrutura persiste, com a população civil sofrendo pela falta de acesso a serviços básicos, água potável e cuidados médicos.
