A Geração Z está emergindo como uma das principais forças políticas do Sul da Ásia. Nos últimos dois anos, movimentos liderados por jovens ajudaram a derrubar governos, forçaram renúncias de autoridades e colocaram em xeque o modelo político adotado por países como Nepal, Bangladesh e Índia. As informações são da NPR.
Embora cada país tenha suas particularidades, especialistas apontam que as manifestações compartilham causas semelhantes: desemprego elevado, desigualdade crescente, corrupção e a percepção de que o mérito já não garante oportunidades para as novas gerações.
O caso mais recente ocorreu na Índia, onde protestos estudantis em massa culminaram na renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan. As manifestações foram impulsionadas por denúncias de vazamento de provas em concursos e exames nacionais, alimentando a revolta de milhões de jovens que enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho.

Movimento das “baratas” ganha força na Índia
A crise ganhou ainda mais visibilidade após comentários atribuídos ao presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, que foram interpretados por parte da população como uma comparação entre jovens desempregados e “baratas”. Embora o magistrado tenha afirmado posteriormente que suas palavras foram mal compreendidas, a expressão rapidamente foi incorporada pelos manifestantes.
O episódio deu origem ao chamado movimento das “baratas”, que se espalhou pelas redes sociais e se transformou em símbolo da insatisfação juvenil com o sistema político e econômico indiano.
A mobilização ocorre em um momento delicado para o país. Apesar do crescimento econômico acelerado registrado nos últimos anos, uma parcela significativa dos jovens com formação superior continua sem perspectivas profissionais.
Desemprego entre jovens preocupa governos
Dados citados pela Universidade Azim Premji indicam que quase 40% dos graduados indianos entre 15 e 25 anos estão desempregados. Entre aqueles com idade entre 25 e 29 anos, a taxa permanece próxima de 20%.
A situação não é exclusiva da Índia. Em Bangladesh, protestos estudantis desempenharam papel central na queda da então primeira-ministra Sheikh Hasina em 2024. O estopim foi a manutenção de um sistema de cotas que reservava parte significativa dos empregos públicos para descendentes de veteranos da guerra de independência.
No Nepal, manifestações em massa levaram à renúncia do primeiro-ministro KP Sharma Oli em 2025. Os protestos começaram após a proibição de dezenas de plataformas de redes sociais, medida que críticos consideraram uma tentativa de censura.
Desigualdade alimenta revolta
Analistas apontam que o crescimento econômico observado em diversos países da região não foi acompanhado por uma distribuição equilibrada da riqueza.
Em Bangladesh, os 10% mais ricos concentram mais da metade da riqueza nacional, enquanto a parcela mais pobre da população possui uma fração mínima dos recursos do país.
No Nepal, onde mais da metade da população tem menos de 30 anos, milhares de jovens qualificados enfrentam dificuldades para encontrar emprego, mesmo após concluir o ensino superior.
Esse cenário tem alimentado uma sensação crescente de exclusão econômica entre os mais jovens.
O poder das redes sociais
Outro fator decisivo é a expansão do acesso à internet. As redes sociais permitiram que jovens organizassem protestos em larga escala, compartilhassem denúncias de corrupção e coordenassem mobilizações com rapidez inédita.
Paradoxalmente, tentativas governamentais de restringir plataformas digitais têm contribuído para aumentar a indignação popular. No Nepal, por exemplo, a proibição das redes sociais acabou acelerando os protestos que levaram à queda do governo.
Novo desafio político
Durante anos, governos da Ásia Meridional apresentaram a grande população jovem como um importante diferencial econômico, capaz de impulsionar crescimento e desenvolvimento.
Entretanto, especialistas alertam que o chamado “dividendo demográfico” pode se transformar em um problema político caso os jovens continuem enfrentando desemprego, desigualdade e falta de perspectivas.