China inicia grande reformulação política e sucessão de Xi Jinping vira incógnita

Reestruturação que atinge todo o Partido Comunista expõe envelhecimento da cúpula e levanta dúvidas sobre o futuro político do país

A China iniciou um amplo processo de renovação política que deve redefinir a estrutura de poder do país nos próximos anos. A mudança, que ocorre a cada cinco anos, mobiliza desde lideranças locais até os mais altos cargos do Partido Comunista Chinês (PCC) e do governo, afetando centenas de milhares de posições em todo o país. As informações são do The Economist.

O movimento, que terá seu ponto máximo no 21º Congresso do Partido Comunista, previsto para o fim de 2027, já provoca tensão entre as elites políticas e militares. Em meio à reorganização, uma certeza permanece: a continuidade de Xi Jinping no comando.

Atual secretário-geral do partido e líder das Forças Armadas, Xi deve renovar seus cargos sem resistência significativa. A permanência também deve se estender ao posto de presidente da China em 2028, consolidando ainda mais sua centralização de poder. O cenário, no entanto, levanta uma questão cada vez mais presente nos bastidores: há um plano real de sucessão?

Xi fala à alta cúpula do Partido Comunista Chinês durante Congresso (Foto: Chinese Embassy in Zimbabwe/Reprodução Twitter)

A dúvida ganha força diante da idade do líder chinês. Xi Jinping terá 79 anos em 2032, quando ocorre o próximo ciclo político relevante. Ainda assim, não há sinais claros de que esteja preparando um substituto – o que rompe com práticas históricas do regime.

Tradicionalmente, nomes cotados para assumir o poder eram promovidos com antecedência ao Politburo, principal órgão de decisão política do país. Hoje, porém, o grupo apresenta um perfil mais envelhecido. O membro mais jovem do Comitê Permanente tem mais de 60 anos, enquanto a média de idade do Politburo é a mais alta das últimas décadas.

A ausência de renovação geracional não se limita ao topo. Dados recentes mostram que o sistema político chinês está se tornando cada vez mais concentrado em lideranças mais velhas. O Comitê Central, por exemplo, já não conta com quadros jovens como em ciclos anteriores, e o mesmo padrão se repete nos níveis provinciais.

Ao mesmo tempo, o processo de escolha dos novos líderes segue sem participação popular efetiva. Embora eleições ocorram na base, elas são amplamente controladas e tendem a manter no poder figuras alinhadas ao partido. Nos níveis superiores, as decisões são tomadas internamente e ratificadas por órgãos sob controle político.

Outro fator que amplia a incerteza é a sequência de expurgos dentro da estrutura de poder. Desde o último congresso, em 2022, diversos integrantes do alto escalão – incluindo aliados de Xi – foram afastados, investigados ou desapareceram do cenário público. Oficialmente, os casos são associados à corrupção, mas analistas apontam também disputas internas e eliminação de rivais.

Esse ambiente reduz ainda mais o número de quadros considerados “seguros” para assumir posições estratégicas, especialmente nas Forças Armadas e no núcleo político central.

Mesmo diante desse cenário, Xi Jinping não demonstra intenção de abrir espaço para uma transição. Em 2018, ele já havia eliminado o limite de dois mandatos presidenciais, rompendo com uma regra informal que orientava a alternância no poder desde as reformas pós-Mao.

A decisão abriu caminho para uma liderança por tempo indeterminado, algo reforçado pela ausência de sucessores claros e pela concentração de poder em torno de seu círculo mais próximo.

Para analistas internacionais, o próximo ciclo político da China pode ser marcado por maior instabilidade interna, mesmo sob um sistema altamente controlado. A combinação entre centralização de poder, envelhecimento da liderança e disputas silenciosas dentro do partido tende a tornar o ambiente político mais imprevisível.

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