A guerra com o Irã e o teste de fogo dos BRICS: O fim do mito da união?

Crise no Golfo Pérsico evidencia a fragilidade do bloco como força diplomática e revela como interesses nacionais individuais se sobrepõem à ambição de uma liderança coletiva no Sul Global

O cenário geopolítico de 2026 atingiu seu ponto de ebulição. Após meses de hostilidades entre EUA, Israel e Irã, o mundo observa não apenas a destruição de infraestruturas vitais, mas também o teste definitivo de um dos blocos mais comentados da última década: os BRICS, grupo que reúne BrasilRússiaÍndiaChinaÁfrica do Sul e outras nações. As informações constam de um artigo do The Diplomat.

Apesar da entrada do Irã no grupo (BRICS+) em 2024, o que se viu durante o conflito não foi uma resposta unificada, mas um silêncio fragmentado que revela os limites reais do poder de ação coletiva do bloco.

Líderes do BRICS na 17ª Cúpula, Rio de Janeiro, 6 de julho de 2025 (Foto: WikiCommons)
Estreito de Ormuz e Inflação

O conflito não ficou restrito às fronteiras do Golfo Pérsico. O fechamento do Estreito de Ormuz — artéria vital para o comércio de energia e fertilizantes — gerou um efeito dominó na economia global:

  • Filipinas: Preço dos combustíveis dobrou.
  • Índia: Êxodo urbano de trabalhadores devido à alta do GLP.
  • EUA: Risco de recessão batendo na casa dos 50%.
  • Segurança alimentar: Países do Golfo viram os preços de alimentos dispararem, dada a dependência de 80% das importações.
Por que o BRICS não mediou o conflito?

Embora o Irã tenha apelado diretamente à Índia (que detém a presidência do bloco em 2026) e à China, a resposta coletiva foi nula. Enquanto o Paquistão assumiu o papel de mediador, os membros do BRICS optaram por interesses nacionais individuais:

  1. Índia: Focou em negociações bilaterais para garantir a passagem de seus próprios navios.
  2. China e Rússia: Usaram seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para barrar resoluções ocidentais, mas sem propor uma alternativa de paz liderada pelo bloco.
  3. Brasil: Manteve o foco na agenda ambiental da COP30, distanciando-se do conflito militar direto.


“O BRICS funciona hoje mais como um ‘clube informal’ à semelhança do G7 do que como uma organização multilateral estruturada como a União Europeia ou a ONU”, diz o artigo.

O futuro do Sul Global em setembro de 2026

Com a cúpula dos líderes marcada para setembro na Índia, a pergunta que fica é: o BRICS ainda é uma alternativa real à ordem liberal do pós-guerra?

A percepção de que a ordem internacional liderada pelo Ocidente é tendenciosa continua forte, mas o BRICS 2026 prova que a “vontade de ser alternativa” esbarra na soberania absoluta de seus membros. O grupo é excelente para criticar o sistema financeiro global, mas ainda hesita em agir como o “policial” ou o “pacificador” do Sul Global.

O que esperar?

A atenção do mundo voltará para Nova Deli no segundo semestre. Se o grupo não conseguir resolver a estagnação econômica e a crise energética gerada pela guerra, as expectativas sobre os BRICS podem finalmente se tornar moderadas, consolidando-o apenas como um fórum de diálogo, e não de intervenção.

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