A possibilidade de um novo acidente nuclear voltou ao radar da Europa em meio à guerra. Segundo autoridades da Ucrânia, mísseis e drones da Rússia têm sobrevoado rotas próximas à região de Chernobyl, aumentando o risco de uma catástrofe em escala continental. As informações são da Reuters.
A denúncia foi feita pelo procurador-geral ucraniano, Ruslan Kravchenko, que revelou detalhes inéditos sobre a movimentação militar russa nas proximidades de instalações nucleares. De acordo com ele, dezenas de mísseis hipersônicos e drones passaram a poucos quilômetros de usinas desde o início da invasão em larga escala, em 2022.
O alerta surge em um momento simbólico: no dia 26 de abril, o mundo relembra os 40 anos do desastre nuclear de Chernobyl, considerado o pior da história.

Rota de risco nuclear
Segundo o governo ucraniano, tanto Chernobyl quanto a usina de Khmelnytskyi estão posicionadas em trajetórias frequentemente utilizadas por mísseis russos, incluindo o hipersônico Kinzhal, uma das armas mais avançadas do arsenal de Vladimir Putin.
Ao todo, pelo menos 35 mísseis foram detectados dentro de um raio de até 20 quilômetros dessas instalações. Em alguns casos, os projéteis passaram simultaneamente próximos a diferentes usinas, ampliando o risco de incidentes.
Em três episódios distintos, mísseis chegaram a cair no solo a cerca de 10 quilômetros da usina de Khmelnytskyi. As causas ainda não são claras, mas não há indícios de interceptação por sistemas de defesa aérea.
Além disso, desde 2024, pelo menos 92 drones russos foram identificados voando a menos de cinco quilômetros da estrutura de contenção de radiação de Chernobyl, um número que pode ser ainda maior, segundo autoridades.
Risco ignorado
Para especialistas e autoridades internacionais, a situação representa um nível de risco sem precedentes desde o fim da Guerra Fria. A Agência Internacional de Energia Atômica tem alertado repetidamente para o perigo de operações militares nas proximidades de usinas nucleares.
O diretor-geral da entidade, Rafael Grossi, já declarou em diversas ocasiões que qualquer incidente pode desencadear consequências graves não apenas para a Ucrânia, mas para toda a Europa.
A principal preocupação é o impacto sobre estruturas críticas, como o escudo de contenção que cobre o reator 4 de Chernobyl, responsável pela explosão de 1986, que espalhou radiação por diversos países europeus.
Ameaça de colapso
Em fevereiro de 2025, um drone atingiu essa estrutura de proteção, perfurando parte do revestimento. A Rússia negou responsabilidade, mas investigações ucranianas apontam que o ataque pode ter sido deliberado.
Segundo o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, o reparo pode custar pelo menos 500 milhões de euros. Sem intervenção, há risco de “corrosão irreversível” da estrutura em poucos anos.
A Ucrânia também acusa a Rússia de utilizar a região de Chernobyl como corredor aéreo para drones, tentando evitar áreas com maior cobertura de defesa antiaérea, uma estratégia que aumentaria ainda mais o risco de acidente.
Energia nuclear
Desde o início da guerra, a questão nuclear se tornou um dos pontos mais sensíveis do conflito. A usina de Zaporizhzhia, a maior da Europa, permanece sob controle russo, aumentando a tensão internacional.
Enquanto isso, Kyiv afirma que suas defesas aéreas são limitadas e priorizam áreas urbanas e infraestruturas críticas, deixando regiões como Chernobyl mais vulneráveis.