Quem controla os cabos submarinos controla a internet — e a disputa já começou

Cabos submarinos que sustentam a internet global entram no centro de disputas geopolíticas, com potências, empresas e governos disputando controle sobre a infraestrutura invisível dos dados

Por André Amaral

A infraestrutura mais crítica da economia digital global não está em satélites, data centers ou torres visíveis no horizonte urbano. Ela está no fundo do mar. Os cabos submarinos de fibra óptica, responsáveis por mais de 95% do tráfego internacional de dados, tornaram-se, nos últimos anos, um ativo estratégico no centro de disputas geopolíticas, pressões regulatórias e preocupações de segurança nacional.

A percepção de risco deixou de ser teórica. Em análise recente, o Washington Post apontou que a rede global de cabos permanece amplamente vulnerável a interferências, com proteção desigual e monitoramento limitado em várias regiões críticas.

O diagnóstico encontra respaldo em eventos recentes. Em 2024, danos a cabos no Mar Vermelho provocaram interrupções significativas na conectividade entre Europa, Ásia e Oriente Médio, evidenciando o impacto sistêmico desse tipo de incidente, segundo o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).

Imagem meramente ilustrativa gerada por IA

A questão deixou de ser apenas técnica e passou a integrar o campo da chamada “guerra híbrida”, na qual infraestrutura civil é incorporada como vetor de pressão estratégica. O raciocínio é direto: ao comprometer fluxos de dados, é possível afetar mercados financeiros, comunicações governamentais, cadeias logísticas e serviços digitais essenciais sem recorrer a confronto militar direto.

Essa preocupação já aparece explicitamente no discurso de atores estatais. Reportagem do Times of India relata que integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) mencionaram a possibilidade de atingir cabos submarinos no Golfo Pérsico, destacando sua vulnerabilidade como ponto de pressão geopolítica.

Paralelamente, avanços tecnológicos ampliam o alcance potencial desse tipo de ação. Segundo o TechRadar, a China testou equipamentos capazes de operar em profundidades de até 3,5 mil metros com capacidade de intervenção física em cabos, um patamar técnico que até recentemente restringia significativamente esse tipo de operação.

Embora tecnologias desse tipo tenham aplicações civis legítimas, como manutenção e instalação, especialistas apontam o potencial de uso dual, especialmente em cenários de tensão entre grandes potências.

A disputa também se manifesta na governança e propriedade da infraestrutura. Um número crescente de projetos de cabos tem sido impactado por restrições políticas, principalmente envolvendo participação chinesa. Estados Unidos e aliados têm bloqueado ou reconfigurado rotas e consórcios por preocupações com espionagem e integridade de dados, conforme análise do Japan-U.S. Institute for Security Studies.

Esse movimento coincide com a entrada mais agressiva de empresas de tecnologia no setor. Google, Meta e Microsoft ampliaram investimentos diretos em cabos próprios, buscando reduzir dependência de operadoras tradicionais e garantir maior controle sobre rotas estratégicas de dados. Ainda assim, projetos enfrentam limitações impostas por instabilidade geopolítica. O Tom’s Hardware reportou atrasos em iniciativas no Mar Vermelho devido a riscos de segurança na região.

Além dos conflitos abertos, a própria geografia da rede contribui para a vulnerabilidade. Gargalos como o Estreito de Ormuz, o Canal de Suez e o Mar Vermelho concentram grande volume de tráfego global. Segundo análise do portal Rest of World, essas regiões combinam alta densidade de cabos com histórico de instabilidade política, ampliando o risco sistêmico.

A resposta institucional começa a se estruturar. Países europeus e membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) vêm ampliando investimentos em monitoramento e proteção dessa infraestrutura, incluindo vigilância naval e sensores submarinos. A União Europeia também anunciou novos aportes para reforçar a resiliência das redes, refletindo a percepção de que cabos submarinos passaram a integrar o núcleo da segurança estratégica contemporânea.

Ao mesmo tempo, o crescimento da demanda por dados intensifica a relevância desse sistema. Relatório da TeleGeography estima bilhões de dólares em novos investimentos até o fim da década, impulsionados por inteligência artificial, computação em nuvem e expansão de data centers

O resultado é uma convergência entre infraestrutura crítica, interesses comerciais e disputas geopolíticas. Cabos submarinos deixaram de ser apenas canais de transmissão e passaram a operar como ativos de poder, influenciando desde fluxos econômicos até relações internacionais.

Nesse contexto, o controle sobre rotas, pontos de aterrissagem e consórcios de operação tende a ganhar importância crescente. Mais do que garantir conectividade, trata-se de definir quem tem acesso, por onde os dados circulam e sob quais condições.

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