Não é a BYD quem está surpreendendo o mercado chinês de carros elétricos

Geely aposta em estratégia flexível entre gasolina, híbridos e elétricos para crescer fora da China e enfrentar rivais globais

A montadora chinesa Geely vem ganhando protagonismo na indústria automotiva global ao desafiar a liderança da BYD, principal fabricante de veículos elétricos do mundo. Em um cenário marcado pela volatilidade nos preços da energia e pelos efeitos da guerra no Irã, a empresa tem se destacado pela capacidade de adaptação e expansão internacional. As informações são do The New York Times.

Durante o Auto China, maior salão do automóvel do país, realizado em Beijing, a Zhejiang Geely Holding Group chamou atenção ao superar a BYD em vendas nos dois primeiros meses de 2026. O desempenho reforça a ascensão da companhia em um momento estratégico para o setor, impulsionado pelo aumento nos preços dos combustíveis fósseis, que reacendeu o interesse por veículos eletrificados.

Modelo SUV Zeekr 8X (Foto: WikiCommons)

A Geely se diferencia por operar em todas as principais frentes de motorização: veículos a gasolina, híbridos convencionais, híbridos plug-in e totalmente elétricos. Essa diversificação permite respostas rápidas às mudanças de mercado. Quando os subsídios chineses para carros elétricos foram encerrados e a demanda caiu, a empresa reforçou sua linha a combustão. Com a recente alta da gasolina, voltou a priorizar modelos eletrificados.

Dados recentes indicam que as vendas de veículos elétricos e híbridos plug-in caíram 14% na China nos primeiros dias de abril, enquanto os carros a gasolina registraram queda ainda maior, de quase 40%. Para analistas do setor, essa flexibilidade se tornou uma vantagem competitiva relevante para a Geely.

Além do mercado interno, a montadora acelera sua presença global. As exportações mais que dobraram no último ano, com foco em regiões como Europa, Oriente Médio, Sudeste Asiático, América Latina e África. A empresa estabeleceu a meta de obter 30% de suas vendas fora da China até 2030.

Fundada em 1998, a Geely vendeu cerca de três milhões de veículos em 2025, crescimento de 39% em relação ao ano anterior. A receita avançou 25%, mesmo diante da intensa guerra de preços no mercado chinês. Hoje, a companhia já se aproxima do volume de vendas de gigantes tradicionais como a Ford.

O crescimento também se apoia em aquisições estratégicas. A empresa controla marcas como Volvo, Lotus, Proton, Polestar e Zeekr, ampliando sua atuação em diferentes segmentos. No mercado premium, por exemplo, a Zeekr tem apostado em tecnologia avançada e veículos de alto valor agregado.

Entre os destaques está o SUV Zeekr 8X, equipado com recursos de automação, entretenimento interno e sistemas avançados de condução. O modelo, híbrido plug-in, foi projetado para mercados com infraestrutura de recarga limitada, uma estratégia cada vez mais adotada por montadoras chinesas.

O avanço da Geely ocorre em paralelo à expansão das exportações automotivas da China, que saltaram de cerca de 1 milhão de veículos por ano entre 2012 e 2020 para mais de 7 milhões recentemente, com expectativa de atingir 10 milhões em 2026.

Apesar do crescimento, o setor enfrenta desafios. A forte concorrência interna, impulsionada por montadoras estatais e guerras de preços, pressiona as margens de lucro. Ainda assim, empresas privadas como a Geely têm conseguido manter resultados positivos, principalmente graças ao mercado externo.

No cenário global, a disputa com a BYD tende a se intensificar. Enquanto a rival aposta em veículos elétricos de baixo custo, a Geely busca diferenciação por meio da diversidade tecnológica e presença internacional.

Especialistas apontam que as tensões geopolíticas e a transição energética devem continuar moldando o setor nos próximos anos. Nesse contexto, a capacidade de adaptação e a estratégia global podem definir quais montadoras liderarão a próxima fase da indústria automobilística.

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