Afeganistão pode perder até 25 mil professoras e profissionais de saúde até 2030, alerta UNICEF

Relatório aponta impacto direto das restrições do Taleban sobre meninas e mulheres, com prejuízos sociais e econômicos

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alertou que o Afeganistão pode perder mais de 25 mil professoras e profissionais de saúde até 2030 caso não haja mudanças nas restrições impostas pelo Taleban à educação de meninas e ao trabalho feminino. O dado consta em relatório divulgado nesta segunda-feira (27). As informações são da Reuters.

Desde que retomou o poder em 2021, o Taleban proibiu mulheres de exercer a maioria dos empregos no setor público e limitou a educação de meninas até os 12 anos de idade. Segundo o documento, essas medidas já impactaram pelo menos um milhão de meninas, número que pode dobrar até o fim da década.

Afegãs durante aula em um universidade na cidade de Farah, em 2013 (Foto: ResoluteSupportMedia/Flickr)

Intitulado “O Custo da Inação na Educação de Meninas e na Participação das Mulheres no Mercado de Trabalho no Afeganistão”, o relatório aponta uma redução acelerada no número de mulheres qualificadas entrando nos setores de saúde e educação. A projeção é de que até 20 mil professoras e 5,4 mil profissionais de saúde deixem de atuar até 2030, o equivalente a cerca de 25% da força de trabalho registrada em 2021. Até 2035, esse número pode alcançar 9,6 mil profissionais de saúde.

A diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, afirmou que o país não pode arcar com a perda desses profissionais. Segundo ela, professores, enfermeiros, médicos, parteiras e assistentes sociais são essenciais para a manutenção de serviços básicos, especialmente em contextos vulneráveis.

O relatório também destaca que mulheres desempenham papel central no atendimento à população feminina, sobretudo em um sistema marcado por segregação de gênero. Em muitos casos, pacientes mulheres só podem ser atendidas por profissionais do mesmo sexo, o que amplia os riscos com a redução dessa força de trabalho.

Além dos impactos sociais, o estudo estima prejuízo econômico anual de pelo menos 5,3 bilhões de afeganes (cerca de 84 milhões de dólares), equivalente a aproximadamente 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

O Unicef reforça que as autoridades de facto do Afeganistão devem garantir o acesso à educação para meninas, ampliar a formação profissional e permitir a participação das mulheres no mercado de trabalho como medidas essenciais para evitar o agravamento da crise.

Misoginia

Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Em 2023, os radicais proibiram inclusive o trabalho das mulheres afegãs em organizações não governamentais e na ONU (Organização das Nações Unidas), o que levou muitas dessas entidades a suspenderem a ajuda humanitária que ofereciam à população do Afeganistão, uma das mais necessitadas de tal suporte em todo o mundo.

Tags: