Levantamento indica aumento dos casos de desnutrição aguda e especialistas alertam que avanços conquistados em duas décadas podem estar sendo perdidos após o fim do financiamento da USAID. As informações são do The Guardian.
A desnutrição infantil no Nepal voltou a preocupar autoridades de saúde e organizações humanitárias. Um novo levantamento nacional aponta que os casos aumentaram após os cortes na ajuda externa de Washington, interrompida com o fim do financiamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
Os dados revelam que a desnutrição infantil no Nepal atingiu níveis considerados alarmantes, especialmente entre crianças menores de cinco anos. Especialistas temem que o país esteja perdendo os avanços conquistados ao longo dos últimos 20 anos na redução da mortalidade infantil.

Pesquisa avaliou mais de 1 milhão de crianças
O estudo é o maior já realizado no Nepal sobre o tema. Mais de um milhão de crianças entre seis meses e cinco anos foram pesadas e medidas durante uma campanha nacional de triagem realizada pelo governo em maio.
Os resultados mostram que 7,8% das crianças apresentavam desnutrição aguda, enquanto 1,6% sofriam de desnutrição aguda grave. Além disso, 17,4% estavam abaixo do peso recomendado para a idade.
Na província de Madhesh, próxima à fronteira com a Índia, a situação é ainda mais preocupante. A taxa de desnutrição aguda chegou a 12,3%, índice considerado elevado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e que exige intervenção imediata.
Especialista alerta para risco de retrocesso
A diretora da Helen Keller Intl no Nepal, Pooja Pandey Rana, afirmou que o país pode estar entrando em um período de retrocesso na saúde infantil.
Segundo ela, uma criança desnutrida tem um risco de morte até 12 vezes maior do que uma criança bem nutrida. Além disso, a desnutrição pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, o desempenho escolar e a produtividade ao longo da vida.
A especialista também destacou que o levantamento alcançou apenas cerca de metade das crianças da faixa etária analisada, o que indica que os números reais podem ser ainda maiores, principalmente nas regiões mais isoladas do país.
Programas de nutrição afetados
Grande parte dos programas de combate à desnutrição infantil era financiada pela USAID. A Helen Keller Intl receberia US$ 72 milhões ao longo de cinco anos para atender quase 9 milhões de pessoas em 48 distritos nepaleses.
Com a interrupção dos recursos, a organização conseguiu captar menos de US$ 5 milhões junto a outros financiadores. Como consequência, o atendimento foi reduzido para apenas nove distritos e cerca de 223 mil pessoas.
Embora o governo continue adquirindo alimentos terapêuticos para tratar crianças desnutridas, o trabalho de busca ativa praticamente desapareceu após os cortes.
Sem agentes comunitários visitando as famílias, muitas crianças deixam de ser identificadas e encaminhadas para tratamento.
Alta dos alimentos agrava cenário
Outro fator que contribui para o aumento da desnutrição infantil no Nepal é a inflação dos alimentos.
Segundo Pandey Rana, produtos considerados fundamentais para uma alimentação saudável ficaram mais caros. Ela cita o ovo como exemplo: atualmente, dois ovos custam o equivalente a um quilo de arroz, levando muitas famílias em situação de insegurança alimentar a priorizar alimentos mais baratos e menos nutritivos.
O Nepal era considerado um exemplo internacional na redução da mortalidade infantil. Entre 1996 e 2022, o país conseguiu diminuir em 72% as mortes de crianças menores de cinco anos.
Agora, especialistas alertam que os avanços podem ser comprometidos caso não haja reposição do financiamento internacional e fortalecimento das políticas públicas voltadas à segurança alimentar.
Atualmente, segundo o Unicef, apenas cerca de 35% das crianças menores de cinco anos que sofrem de desnutrição aguda recebem tratamento no país.