A guerra de Tigré pode estar prestes a voltar. Novos confrontos entre forças do governo da Etiópia e a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF) aumentaram o risco de uma nova escalada no Chifre da África, região que reúne alguns dos principais pontos de tensão geopolítica do continente. As informações são do The Soufan Center.
O conflito preocupa porque a disputa deixou de ser apenas uma questão interna da Etiópia. Eritreia, Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Sudão e Somália estão envolvidos, direta ou indiretamente, em uma complexa rede de alianças e rivalidades. Uma nova guerra em Tigré poderia, portanto, atrair potências regionais e transformar uma disputa local em uma crise muito maior.
As tensões entre as Forças de Defesa Nacional da Etiópia (ENDF) e a TPLF aumentaram nas últimas semanas. Um dos episódios mais recentes foi um ataque de drone contra Mekelle, capital da região de Tigré, no norte da Etiópia. O incidente ocorreu depois de meses de confrontos e movimentações militares ao longo da fronteira entre Tigré e o restante do país.

A possibilidade de uma nova guerra é especialmente preocupante porque a região ainda não se recuperou do conflito anterior. A guerra de Tigré, travada entre 2020 e 2022, deixou cerca de 600 mil mortos e milhões de deslocados. O Acordo de Paz de Pretória encerrou os combates em 2022, mas a trégua permaneceu frágil e confrontos de baixa intensidade voltaram a ocorrer em 2025.
O papel da Eritreia
A Eritreia é uma das principais razões pelas quais um novo conflito poderia rapidamente ganhar dimensão regional. Durante a guerra anterior, o país apoiou as forças do governo etíope contra a TPLF. A relação, porém, mudou depois do acordo de paz de 2022, que excluiu Asmara das negociações.
Desde então, as relações entre Eritreia e Etiópia se deterioraram. A disputa envolve também o acesso ao Mar Vermelho, uma questão estratégica para o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed.
A Etiópia perdeu seu acesso direto ao Mar Vermelho quando a Eritreia se tornou independente, em 1993. Desde 2025, Abiy aumentou a pressão política em torno do tema e passou a defender com mais frequência o que considera o direito histórico da Etiópia de ter acesso ao mar por meio da Eritreia.
Para Asmara, porém, qualquer tentativa etíope de recuperar influência sobre o litoral representa uma ameaça à própria segurança nacional.
Egito entra no jogo
O Egito também tem motivos para se opor ao avanço da influência etíope na região. Cairo mantém uma relação próxima com a Eritreia e há décadas disputa com Adis Abeba o controle dos recursos hídricos do Nilo.
A principal fonte de tensão é a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), construída pela Etiópia no Nilo Azul. O Egito teme que a forma como Adis Abeba administra a barragem afete o fluxo de água que chega ao seu território. O Nilo é responsável por cerca de 85% da água doce utilizada pelo país.
A disputa pela água se soma à competição pelo Mar Vermelho. O Egito vê o avanço da Etiópia no Chifre da África como uma ameaça à sua influência regional e chegou a assinar um pacto de segurança com a Somália em 2024, depois que Abiy buscou acesso ao mar por meio de portos somalis.
Por isso, uma nova guerra em Tigré poderia colocar o Egito em uma posição ainda mais diretamente envolvida na disputa contra Adis Abeba.
A Arábia Saudita
Do outro lado do Mar Vermelho está a Arábia Saudita, que também tem interesse em limitar o avanço da Etiópia.
Riad mantém uma relação histórica com a Eritreia e considera o controle das rotas do Mar Vermelho uma questão estratégica. A importância da região aumentou ainda mais com a guerra entre Estados Unidos e Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, que elevou o peso econômico e militar do Mar Vermelho.
O conflito entre os houthis, apoiados pelo Irã, e seus adversários no Iêmen também representa uma ameaça. Ataques contra navios comerciais e o risco de bloqueios no estreito de Bab el-Mandeb podem afetar uma das principais rotas do comércio mundial.
Qualquer nova guerra envolvendo Etiópia, Eritreia e Tigré poderia, portanto, adicionar mais uma fonte de instabilidade a uma área que já enfrenta disputas militares e comerciais.
A disputa entre Arábia Saudita e Emirados
A situação fica ainda mais complexa por causa da rivalidade entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Os dois países são parceiros, mas possuem interesses diferentes no Chifre da África e no Mar Vermelho. A Arábia Saudita e o Egito apoiam a Eritreia, enquanto os Emirados investiram fortemente na Etiópia e forneceram assistência militar a Adis Abeba.
A disputa entre os dois países do Golfo também aparece em outros conflitos da região, principalmente no Iêmen e no Sudão.
Os Emirados são apontados como o principal apoiador das Forças de Apoio Rápido (RSF), que lutam contra as Forças Armadas Sudanesas (SAF) na guerra civil do Sudão. As SAF, por sua vez, acusam a Etiópia de permitir a instalação de bases e campos de treinamento das RSF em seu território e de facilitar o envio de armas fornecidas pelos Emirados.
Isso significa que uma nova guerra em Tigré poderia conectar conflitos que já estão acontecendo em diferentes partes do Chifre da África.
Um novo conflito regional?
Caso os combates entre a Etiópia e a TPLF sejam retomados em grande escala, os alinhamentos regionais podem colocar diversos países em lados opostos.
Arábia Saudita, Egito, Eritreia, Somália e as Forças Armadas Sudanesas tenderiam a se aproximar da TPLF e a se posicionar contra Adis Abeba. Do outro lado, os Emirados Árabes Unidos e as Forças de Apoio Rápido poderiam apoiar o governo etíope.
O analista Cameron Hudson, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), classificou o risco de uma nova escalada na região como potencialmente comparável a uma “Segunda Guerra Mundial da África”.
A avaliação pode parecer exagerada, mas o risco central é real: a guerra de Tigré não aconteceria mais em um cenário regional isolado. O conflito poderia se conectar às disputas pelo Mar Vermelho, à guerra civil do Sudão, à rivalidade entre Arábia Saudita e Emirados e às tensões entre Egito e Etiópia.
O dilema dos Estados Unidos
Washington também teria dificuldades para permanecer à margem. Os Estados Unidos mantêm relações próximas tanto com a Arábia Saudita quanto com os Emirados Árabes Unidos, apesar da rivalidade entre os dois países.
Uma nova guerra no Chifre da África poderia ameaçar as rotas comerciais do Mar Vermelho e provocar novos impactos sobre a economia global. O risco é ainda maior porque a região já sofre os efeitos da instabilidade provocada pela guerra com o Irã.
Em maio, os Estados Unidos suspenderam as sanções contra a Eritreia que estavam em vigor havia cinco anos, em uma tentativa de reduzir as tensões entre Asmara e Adis Abeba e estabilizar as rotas marítimas do Mar Vermelho.
Se Etiópia e Eritreia entrarem novamente em confronto direto, Washington terá de equilibrar interesses de parceiros que estão em lados diferentes da disputa. E, enquanto os Estados Unidos continuam envolvidos na guerra com o Irã, uma nova crise no Chifre da África seria mais um problema estratégico para a Casa Branca administrar.
Por que isso importa?
A região de Tigré, no extremo norte da Etiópia, esteve imersa em conflitos por dois anos desde novembro de 2020, quando disputas eleitorais levaram Addis Abeba a determinar a tomada das instituições locais. A disputa opõe a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF, na sigla em inglês), partido político com um braço armado que liderou a coalizão rebelde, às forças de segurança nacionais da Etiópia.
Os militares chegaram a reconquistar Tigré, mas os rebeldes viraram o jogo e começaram a ganhar território. No final de junho de 2021, eles anunciaram um processo de “limpeza” para retomar integralmente o controle da região e assumiram o comando de Mekelle.

Pouco após a derrota do exército, o governo da Etiópia decretou um cessar-fogo e deixou Tigré. Os soldados do exército da aliada Eritreia também deixaram de ser vistos por lá. Posteriormente, com o avanço dos rebeldes, que chegaram às regiões vizinhas de Amhara e Afar, o exército foi enviado novamente para apoiar as tropas locais.
Durante o conflito, a TPLF se aliou ao Exército de Libertação Oromo (OLA, na sigla em inglês), que em 2020 se desvinculou do partido político homônimo e passou a defender de maneira independente a etnia Oromo, a maior da Etiópia.
A coalizão passou a superar o exército nos confrontos armados e chegou a ameaçar rumar para a capital, sem sucesso. A situação estava relativamente calma em 2022 até agosto, quando nos confrontos eclodiram. Três meses depois, um cessar-fogo foi firmado, e os rebeldes começaram a depor suas armas.
Acredita-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido no conflito, com milhões de deslocados das regiões de Tigré, Amhara e Afar. Em março de 2023, os EUA acusaram todas as partes envolvidas no conflito de cometerem crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
A denúncia recai não apenas sobre as forças armadas da Etiópia e da Eritreia, país vizinho que apoiou o governo etíope durante o conflito. Também atinge as milícias de oposição, quais sejam a TPLF e as forças rebeldes de Amhara.
Atualmente, com o pacto de paz ativo, Tigré enfrenta um período de calmaria, sob um governo interino liderado pela TPLF e à espera de eleições prometidas por Adis Abeba.