Atingida por novos ataques a refinarias, a Rússia voltou a registrar filas e falta de gasolina em diferentes regiões. Dados analisados pelo site investigativo Meduza mostram que a segunda onda da crise apresenta características diferentes da registrada em julho.
A crise de combustíveis na Rússia voltou a se intensificar em agosto, depois de uma melhora temporária registrada no fim de julho. Segundo levantamento da reportagem, baseado em quase 500 mil relatos de motoristas, entre 11 e 13 de agosto apenas 25% a 33% dos postos pesquisados tinham gasolina disponível sem filas. Quando considerados também os postos que ainda tinham combustível, mas apresentavam filas, o índice ficou entre 46% e 48%.
O levantamento utilizou informações do GdeBENZ, serviço que reúne relatos de motoristas sobre a disponibilidade de combustíveis nos postos russos. Os dados foram comparados com registros de pagamentos dos bancos Sberbank, T-Bank e Alfa-Bank, além de informações sobre ataques contra refinarias e volumes negociados na Bolsa de São Petersburgo.

Segunda onda
A primeira fase da crise ocorreu principalmente em julho, após uma série de ataques contra instalações de refino russas. Entre 8 e 11 de julho, apenas 17% a 29% dos postos registrados no GdeBENZ tinham gasolina disponível sem filas. Considerando também os locais onde havia filas, a disponibilidade variava de 56% a 64%.
A situação começou a melhorar em meados daquele mês. Refinarias retomaram parte das operações, enquanto o governo russo adotou medidas como restrições às exportações e aumento das importações de combustíveis.
A recuperação, entretanto, foi temporária. Entre 25 de julho e 20 de agosto, drones ucranianos atingiram refinarias russas em pelo menos 15 ocasiões, segundo o levantamento. Entre os locais atingidos estavam instalações em Tyumen, Ryazan, Perm, Volgogrado, Ufa, Syzran, Yaroslavl, Nizhnekamsk, Orsk e Salavat.
Com a retomada dos ataques, a disponibilidade nos postos voltou a cair.
Moscou afetada
A segunda onda também atingiu Moscou e a região metropolitana, que haviam registrado situação melhor durante a primeira fase.
Na capital, a proporção de postos com gasolina disponível sem filas caiu de 75% no fim de julho para 30% em meados de agosto. Considerando também os postos com filas, o índice passou de 85% para 49%.
Na região metropolitana de Moscou, a disponibilidade sem filas caiu de 72% para 25%. Incluindo os postos com filas, passou de 78% para 44%.
São Petersburgo apresentou um comportamento diferente. Entre 21 e 23 de agosto, aproximadamente 81% dos postos pesquisados tinham gasolina sem filas. Considerando também aqueles com filas, o índice chegou a 86%.
Produção menor
Os dados do mercado também mostram redução no volume de combustíveis negociado. Em junho de 2026, foram comercializadas aproximadamente 29 mil toneladas de gasolina por dia útil na bolsa, contra 42 mil no mesmo período de 2025. Em julho, foram cerca de 20 mil toneladas diárias, ante 41 mil no ano anterior.
Entre 1º e 20 de agosto, a média caiu para aproximadamente 18 mil toneladas por dia, contra 40 mil em agosto de 2025. A diferença representa uma redução de cerca de 55%.

Considerando gasolina e diesel conjuntamente, o volume negociado em agosto estava 34% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior.
Preços sobem
A redução da oferta também afetou os preços. Entre 29 de junho e 20 de julho, o preço médio da gasolina de 92 octanas na Rússia passou de 69 para 73,5 rublos por litro. A gasolina de 95 octanas subiu de 74 para 79 rublos.
Os maiores aumentos foram registrados em algumas regiões afetadas pela escassez. Na Crimeia ocupada pela Rússia, por exemplo, o preço médio passou de 154 para 222 rublos por litro entre 6 e 20 de julho, segundo dados do Rosstat.
Em Sebastopol, o preço aumentou de aproximadamente 133 para 211 rublos por litro no mesmo período.
Dependência externa
Para compensar parte da redução da oferta doméstica, a Rússia também aumentou as importações. Segundo informações divulgadas pela Reuters, pelo menos 60 mil toneladas de gasolina foram enviadas da Índia para a Rússia. Também foram planejadas importações de outros países, principalmente Belarus.
O levantamento da Meduza indica ainda que as autoridades russas reduziram, em julho, a parcela mínima da produção de gasolina que as empresas deveriam vender na bolsa. O percentual passou de 15% para 10%.
Próximos meses
A situação do abastecimento apresentou alguma melhora nos últimos dias analisados pela Meduza. Em 23 de agosto, a gasolina estava disponível sem filas em 38% a 46% dos postos pesquisados. Considerando também os postos com filas, o índice havia subido para 63% a 75%.
O levantamento, porém, aponta que a evolução do abastecimento dependerá da recuperação das refinarias, da distribuição interna e da ocorrência de novos ataques contra instalações de produção.
Outro fator previsto para os próximos meses são as paradas programadas para manutenção de grandes refinarias na Rússia e em Belarus, que coincidirão com o período de aumento sazonal da demanda por combustíveis.