Índia quer usar a rota marítima do Ártico para chegar à Europa

Nova Délhi planeja testar em 2027 uma passagem pelo Ártico russo que pode reduzir a distância entre a Ásia e a Europa, mas enfrenta obstáculos climáticos, logísticos e geopolíticos

A Índia se prepara para testar, em 2027, uma rota marítima que atravessa o Ártico russo e pode encurtar a ligação comercial entre a Ásia e a Europa. O movimento coloca Nova Délhi ao lado de China e Coreia do Sul na busca por alternativas ao tradicional caminho pelo Canal de Suez.

A chamada Rota Marítima do Norte acompanha a costa ártica da Rússia, entre o estreito de Bering e o noroeste do país. Em determinadas viagens entre a Ásia e o norte da Europa, ela pode reduzir significativamente a distância percorrida por navios que normalmente passam pelo Oceano Índico, Mar Vermelho e Canal de Suez.

O plano indiano ainda está em fase de teste. Segundo o Moneycontrol, Nova Délhi pretende enviar seu primeiro navio pela rota em 2027 para avaliar sua viabilidade comercial.

Navio porta-contêineres navega pelo Canal de Suez, uma das principais rotas marítimas entre a Ásia e a Europa (Foto: WikiCommons)

A iniciativa ocorre em um momento de crescente interesse asiático pelo Ártico. A China já desenvolve sua chamada “Rota da Seda de Gelo”, enquanto a Coreia do Sul também realiza viagens experimentais. Em agosto, um navio sul-coreano partiu de Busan com destino ao Reino Unido, aos Países Baixos e à Polônia, utilizando a passagem ártica.

Mais curta, mas não simples

A principal vantagem da Rota Marítima do Norte é geográfica. Para determinados trajetos, a passagem pelo Ártico pode representar uma alternativa mais curta à rota pelo Canal de Suez. Isso significa potencialmente menos tempo de viagem e menor consumo de combustível.

Mas a distância menor não significa que a rota já seja mais barata ou mais eficiente. O Ártico continua impondo condições extremas à navegação. O gelo, as temperaturas baixas, a infraestrutura limitada e a necessidade de apoio especializado tornam a operação mais complexa. Em determinadas épocas do ano, navios podem precisar da assistência de quebra-gelos.

A própria natureza sazonal da passagem é outro obstáculo. Diferentemente do Canal de Suez, que funciona como uma ligação permanente entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, a utilização da rota ártica depende das condições de navegação e do período do ano.

Rússia no meio

Existe ainda uma questão que pode ser tão importante quanto a geografia: a rota passa pelo território russo.

Portos, infraestrutura e serviços necessários à navegação estão sob forte influência de Moscou. Para a Índia, isso pode ser uma vantagem, já que Nova Délhi mantém relações próximas com a Rússia. Para empresas e países submetidos às sanções ocidentais contra Moscou, porém, a dependência pode representar um problema.

O interesse indiano também se conecta aos esforços para ampliar os vínculos comerciais com o extremo leste russo. A possibilidade de combinar a Rota Marítima do Norte com conexões entre Vladivostok e a Índia pode criar um novo eixo de comércio entre os dois países.

China também está de olho

A presença chinesa torna o movimento ainda mais estratégico. Beijing vem tentando ampliar sua participação econômica no Ártico e considera a região parte de seus projetos de conectividade comercial.

A entrada de Índia e Coreia do Sul nesse espaço aumenta a competição por uma rota que, até pouco tempo atrás, era vista principalmente como uma passagem de interesse russo.

Segundo a reportagem, 88 embarcações realizaram 103 travessias da Rota Marítima do Norte em 2025. É um volume ainda pequeno diante dos grandes corredores marítimos internacionais. Isso significa que a rota está longe de ameaçar o Canal de Suez no curto prazo.

Mas o movimento é importante por outro motivo. Índia, China e Coreia do Sul estão começando a tratar o Ártico como uma possível peça do comércio entre a Ásia e a Europa.

O gelo muda a geopolítica

O interesse crescente pela região também está relacionado às transformações ambientais no Ártico. A redução do gelo marinho vem ampliando, em determinados períodos, a possibilidade de navegação por áreas que durante grande parte do ano eram muito mais difíceis de atravessar.

Isso não significa que o Ártico tenha se tornado uma nova autoestrada marítima. A infraestrutura ainda é limitada e os riscos continuam elevados. Mas cada viagem experimental fornece informações sobre custos, tempo, segurança e capacidade operacional. Se esses obstáculos forem reduzidos, a rota poderá ganhar importância nas próximas décadas.

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