Vitória de Lula dá à China vantagem estratégica na disputa por terras-raras do Brasil

Reservas minerais brasileiras atraem potências estrangeiras, enquanto o governo busca investimentos e maior controle nacional sobre a cadeia produtiva

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva reforça a posição da China na América Latina e mantém o Brasil no centro da disputa internacional por terras-raras, minerais essenciais para a produção de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologias militares. As informações são do South China Morning Post.

O veículo avaliou que a vitória de Lula preserva a influência de Beijing no maior país da América Latina e permite ao governo brasileiro explorar a rivalidade entre China e Estados Unidos para negociar investimentos e ampliar sua margem de atuação internacional.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia de assinatura de acordos entre os governos do Brasil e da China, em novembro de 2024 (Foto: WikiCommons)

O governo chinês reagiu rapidamente ao resultado. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, parabenizou Lula e afirmou que Beijing pretende continuar aprofundando a relação bilateral e a construção de uma “comunidade China-Brasil com futuro compartilhado”.

O interesse chinês ocorre em um momento em que Washington procura reduzir sua dependência das cadeias de fornecimento dominadas pela China, especialmente no setor de minerais críticos.

Disputa mineral

As terras-raras formam um grupo de 17 elementos químicos utilizados em diversas tecnologias, da fabricação de smartphones e motores elétricos à produção de equipamentos de defesa. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na natureza. O desafio está em localizar depósitos economicamente viáveis e desenvolver a infraestrutura necessária para extração, separação e processamento.

O Brasil possui a segunda maior reserva estimada de terras-raras do mundo, atrás apenas da China. Essa riqueza mineral tem atraído empresas e governos interessados em diversificar o fornecimento de matérias-primas estratégicas.

A vantagem chinesa, porém, não se limita às reservas. O país asiático mantém uma posição dominante em etapas industriais decisivas, especialmente no processamento e no refino desses minerais. Isso significa que possuir jazidas não garante, por si só, autonomia tecnológica ou controle sobre os produtos de maior valor agregado.

Os Estados Unidos buscam ampliar o acesso a fontes alternativas de fornecimento e estimular a criação de cadeias produtivas fora da China. O Brasil, por sua vez, tenta aproveitar a competição para atrair capital e tecnologia sem se comprometer exclusivamente com uma das potências.

Soberania brasileira

Lula tem defendido que os investimentos estrangeiros no setor mineral contribuam para desenvolver a indústria nacional. Em maio, durante encontro com o presidente norte-americano Donald Trump, afirmou que o Brasil está disposto a receber empresas de diferentes países, desde que haja interesse em processar os minerais em território brasileiro.

A posição busca evitar que o país se limite a exportar matérias-primas e compre, posteriormente, produtos industrializados fabricados no exterior. O governo pretende ampliar a participação brasileira nas etapas de separação, refino e transformação dos minerais.

Essa estratégia também responde ao interesse dos Estados Unidos em reduzir a dependência da China. Ao negociar com diferentes parceiros, Brasília pode buscar melhores condições para investimentos, transferência de tecnologia e desenvolvimento industrial.

O desafio é transformar o interesse internacional em capacidade produtiva instalada no Brasil. Sem infraestrutura, tecnologia, mão de obra especializada e segurança regulatória, o aumento da exploração mineral não garante que os principais benefícios econômicos permaneçam no país.

O caso Serra Verde

A disputa em torno da mineradora Serra Verde, instalada em Goiás, ilustra as contradições desse cenário. Em abril de 2026, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da companhia brasileira em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões.

A Serra Verde opera a mina Pela Ema, em Minaçu, e produz terras-raras utilizadas na fabricação de ímãs permanentes, componentes importantes para veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs e equipamentos militares.

O negócio amplia a presença norte-americana em um segmento estratégico da mineração brasileira. Ao mesmo tempo, evidencia como a propriedade de uma mina e o controle das etapas industriais podem envolver interesses internacionais distintos.

Como mostrou reportagem de A Referência sobre a mina de terras-raras brasileira financiada pelo Ocidente, investimentos ocidentais no setor podem coexistir com a influência chinesa sobre a compra da produção e o processamento dos minerais. O caso demonstra que a disputa não se resume a quem extrai o recurso, mas também envolve quem o transforma e controla o acesso aos produtos finais.

A aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth reforça o interesse dos Estados Unidos em construir cadeias de fornecimento alternativas às chinesas. Para o Brasil, a questão central é garantir que a entrada de capital estrangeiro contribua para desenvolver capacidades industriais locais.

Equilíbrio diplomático

A reeleição de Lula dá continuidade à política de aproximação com a China, importante parceira comercial do Brasil e integrante do Brics. Isso não significa, necessariamente, que Brasília pretenda excluir empresas norte-americanas ou escolher um lado na rivalidade entre as duas potências.

A estratégia brasileira consiste em negociar com diferentes parceiros e tentar obter benefícios econômicos e tecnológicos sem abrir mão da autonomia sobre seus recursos. O governo também enfrenta pressões internas para ampliar a industrialização e evitar que o país permaneça como fornecedor de matérias-primas.

A disputa por terras-raras faz parte de uma competição mais ampla por recursos estratégicos, que inclui outros países e regiões. Em outubro, A Referência noticiou as negociações dos Estados Unidos com a ditadura de Mianmar para reduzir a influência chinesa sobre as terras-raras, mostrando que Washington procura alternativas ao domínio de Beijing também em outros pontos do mundo.

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