Elon Musk virou peça-chave na guerra: agora Putin quer uma Starlink para chamar de sua

Conselho de Segurança russo cobra produção em massa de satélites e equipamentos para rivalizar com a rede do trilionário. Sistema Rassvet já começou a operar, mas ainda está muito distante da estrutura da empresa americana

A Rússia quer acelerar a implantação de sua própria rede de internet via satélite para reduzir a dependência de tecnologias ocidentais e enfrentar a vantagem proporcionada pela Starlink às forças ucranianas. O Conselho de Segurança russo defendeu, na sexta-feira (6), a expansão urgente do projeto Rassvet, desenvolvido para competir com o sistema da empresa SpaceX, de Elon Musk. As informações são do The Moscow Times.

Em comunicado divulgado após uma reunião sobre segurança da informação e acesso à internet, o órgão afirmou que é necessário ampliar rapidamente a produção de satélites de comunicação e equipamentos terrestres. A declaração também classificou serviços ocidentais de comunicação espacial, especialmente Starlink e OneWeb, como possíveis instrumentos de desestabilização política em países soberanos.

Registro de longa exposição mostra satélites da rede Starlink cruzando o céu entre as estrelas (Foto: Wikimedia Commons)

A iniciativa tem uma dimensão que ultrapassa o acesso à internet. Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a conectividade por satélite tornou-se um recurso estratégico para comunicação militar, coordenação de tropas, operação de drones e transmissão de informações no campo de batalha.

A Starlink, operada pela SpaceX, tornou-se uma das principais estruturas de comunicação utilizadas pelas forças ucranianas. A Rússia, por sua vez, tenta desenvolver uma alternativa nacional capaz de oferecer conectividade semelhante e reduzir a vantagem tecnológica de Kiev.

Rassvet ainda está longe da Starlink

O projeto russo é desenvolvido pela empresa aeroespacial Bureau 1440, com financiamento estatal. A rede prevê a utilização de centenas de satélites em órbita baixa, capazes de oferecer internet de alta velocidade e baixa latência em diferentes regiões do território russo.

Segundo informações apresentadas pelo ministro do Desenvolvimento Digital, Maksut Shadayev, ao presidente Vladimir Putin, a Rússia já colocou pouco mais de 30 satélites Rassvet em órbita. A diferença em relação à concorrente americana é expressiva: a Starlink possui mais de 10 mil satélites ativos.

A primeira leva de 16 equipamentos russos foi lançada em março de 2026. Uma segunda operação ocorreu em julho. O planejamento da empresa prevê a expansão progressiva da constelação, com mais de 900 satélites até 2035.

A expectativa é que o serviço comercial comece a funcionar em 2027, inicialmente com cobertura limitada e expansão gradual.

A distância tecnológica e operacional entre os dois projetos ainda é grande. A Starlink está em operação desde 2019 e possui uma estrutura consolidada de satélites, estações terrestres e terminais de acesso. A Rússia ainda precisa ampliar sua capacidade industrial e desenvolver uma rede capaz de oferecer cobertura contínua.

Guerra acelera disputa espacial

O interesse russo pelo Rassvet está diretamente relacionado à experiência da guerra contra a Ucrânia. A Starlink permitiu que as forças de Kiev mantivessem comunicações mesmo em regiões onde a infraestrutura convencional foi destruída pelos ataques russos.

A conexão também se tornou fundamental para o funcionamento de drones de reconhecimento e ataque, que dependem da transmissão de dados para receber comandos e compartilhar imagens em tempo real.

A Rússia tentou contornar essa vantagem utilizando terminais Starlink adquiridos por intermediários. No entanto, a SpaceX adotou medidas para bloquear equipamentos não autorizados utilizados pelas forças russas, prejudicando parte das operações militares de Moscou.

Agora, Kiev afirma que a Rússia já utiliza o Rassvet para comunicações militares em território ucraniano. Segundo a inteligência militar ucraniana, a rede ainda não oferece cobertura contínua, mas pode transmitir informações durante as passagens dos satélites sobre determinadas áreas, segundo a Reuters.

O avanço é acompanhado com preocupação pelas autoridades ucranianas. Uma rede mais ampla poderia permitir que drones russos transmitissem imagens em tempo real, recebessem alterações de rota durante o voo e ajustassem ataques conforme a movimentação dos alvos.

Em reportagem publicada em agosto, a Reuters informou que a inteligência ucraniana estimava que Moscou pretendia alcançar 292 satélites em 2027 e 924 até 2035. O cronograma demonstra a dimensão da ambição russa, embora a construção de uma estrutura desse porte dependa de investimentos, capacidade industrial e disponibilidade de componentes tecnológicos.

Musk no centro da disputa

A ofensiva russa também tem um componente político. O governo Putin considera perigoso depender de uma infraestrutura controlada por uma empresa privada americana, especialmente quando essa tecnologia pode influenciar diretamente o resultado de uma guerra.

O próprio presidente russo elogiou Elon Musk recentemente, classificando-o como um gênio por desenvolver a Starlink. Ao mesmo tempo, o vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev, criticou o empresário por permitir que as forças ucranianas utilizem a rede.

A contradição revela o dilema de Moscou: reconhece a superioridade tecnológica americana, mas considera inaceitável que uma empresa dos Estados Unidos controle uma infraestrutura estratégica da qual depende parte da capacidade militar ucraniana. Reuters

O tema também foi abordado por A Referência na reportagem Sem alternativa à Starlink, Ucrânia fica vulnerável às decisões de Elon Musk. O texto analisa como interrupções no serviço podem comprometer operações militares e evidencia a dependência de Kiev em relação à infraestrutura da SpaceX.

Outro caso relevante é o do Irã. Em outubro, A Referência publicou Irã chama Starlink de “arma de guerra” e amplia restrições à internet, mostrando como governos que enfrentam tensões com Washington também passaram a tratar a rede como uma ameaça à segurança nacional.

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