Eleição na Colômbia coloca Amazônia no centro do debate entre agricultores e candidatos

Pequenos produtores rurais temem que o resultado do segundo turno presidencial afete políticas de conservação, reforma agrária e combate ao desmatamento na Amazônia colombiana

A disputa presidencial na Colômbia tem colocado o futuro da Amazônia e das comunidades rurais no centro do debate político. À medida que o país se aproxima do segundo turno das eleições, marcado para 21 de junho, agricultores da região amazônica demonstram preocupação com os impactos que a vitória de qualquer um dos candidatos poderá ter sobre programas de conservação ambiental, reforma agrária e desenvolvimento sustentável. As informações são do The Guardian.

Em departamentos como Guaviare, na região central da Colômbia, milhares de famílias dependem da agricultura e da pecuária para sobreviver. Nos últimos anos, muitas delas passaram a adotar práticas de conservação ambiental em parceria com o governo e organizações internacionais, buscando reduzir o desmatamento sem comprometer a renda das comunidades.

Um produtor de café no departamento de Cauca, no sudoeste da Colômbia (Foto: WikiCommons)

Um dos principais instrumentos dessa política são as Zonas de Reserva Camponesa (ZRCs), áreas destinadas a fortalecer a agricultura familiar, garantir direitos à terra e promover atividades econômicas sustentáveis. O governo do presidente Gustavo Petro ampliou significativamente essas reservas durante seu mandato, criando 20 das 27 zonas atualmente reconhecidas no país.

Na cidade amazônica de Calamar, agricultores que participaram da criação da Reserva Guardiã de Chiribiquete afirmam que as ZRCs representam uma oportunidade de conciliar preservação ambiental e desenvolvimento econômico. A reserva abriga milhares de moradores e está localizada próxima ao Parque Nacional Chiribiquete, considerado um dos mais importantes patrimônios naturais da Amazônia.

Da coca à conservação

A história de muitos agricultores da região está diretamente ligada às transformações econômicas e sociais da Amazônia colombiana. Durante décadas, o cultivo da folha de coca foi uma das principais fontes de renda em áreas isoladas do país.

Com o avanço das políticas de combate ao narcotráfico e programas de erradicação das plantações, muitos produtores migraram para a pecuária. No entanto, essa mudança também contribuiu para o avanço do desmatamento.

Dados citados por agricultores da região indicam que Guaviare perdeu cerca de 350 mil hectares de floresta entre 2002 e 2025, tornando-se uma das áreas mais afetadas pela destruição da cobertura vegetal amazônica.

Nos últimos anos, iniciativas de reflorestamento e diversificação agrícola passaram a ganhar espaço. Famílias que antes dependiam da coca agora cultivam produtos como cacau, laranja, abacate, tamarindo e chontaduro, mantendo parte de suas propriedades destinadas exclusivamente à conservação ambiental.

Incerteza após as eleições

Apesar dos avanços, o clima entre os agricultores é de incerteza. Muitos reconhecem os esforços do governo Petro para ampliar o acesso à terra e incentivar práticas sustentáveis, mas criticam a incapacidade do Estado de conter a atuação de grupos armados em diversas regiões rurais.

A disputa eleitoral opõe o candidato de direita Abelardo de la Espriella ao senador de esquerda Iván Cepeda. O resultado poderá definir os rumos das políticas ambientais e agrárias da Colômbia nos próximos anos.

Entre os moradores das ZRCs existe o receio de que uma eventual vitória da direita resulte em maior incentivo à pecuária extensiva e ao agronegócio em larga escala, aumentando a pressão sobre a floresta amazônica. Por outro lado, também há preocupações sobre a continuidade da violência armada caso os atuais modelos de negociação e diálogo sejam mantidos.

Especialistas afirmam que o desafio do próximo governo será equilibrar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e segurança no campo, temas que permanecem interligados em uma das regiões mais estratégicas da América do Sul.

Futuro da Amazônia

Independentemente do resultado eleitoral, agricultores e analistas concordam que a Colômbia precisará promover mudanças profundas em sua economia rural.

Para os moradores da Amazônia, a preservação da floresta somente será viável se gerar renda compatível com as atividades tradicionais. A expectativa é que novos investimentos em bioeconomia, reflorestamento, agricultura sustentável e mercados de carbono possam criar alternativas econômicas capazes de reduzir a pressão sobre a floresta.

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