Ásia e Pacífico

Com militares no poder em Mianmar, cresce o tráfico de madeira rumo à China

Nem as monções, que costumam provocar fortes chuvas entre junho e outubro, interromperam o trabalho dos contrabandistas

O comércio ilegal de madeira tem se intensificado em Mianmar desde que a junta militar assumiu o poder no país, com o golpe de Estado de fevereiro deste ano. Atualmente, nem as monções, que costumam provocar fortes chuvas entre junho e outubro, interromperam o trabalho dos contrabandistas, que habitualmente destinam a carga à China. As informações são do site local The Irrawaday.

“A extração ilegal de madeira está fora de controle desde o golpe”, diz um ambientalista local identificado apenas como Salai, que pediu para não revelar o nome com medo da violenta repressão por parte do governo. “Houve pelo menos 40 a 50 caminhões carregados com madeira indo para a China todos os dias [de março a maio]”, disse U Tin Myint, outro ambientalista local.

Madeira cortada para exportação na região de Sagaing, em Mianmar, janeiro de 2016 (Foto: Wikimedia Commons)

Legalmente, toda madeira exportada pelo país deveria passar pelo porto de Yangon. Porém, um sofisticado esquema de contrabando, fortalecido pela corrupção alfandegária, permite o transporte terrestre da commoditie, que tem origem nos Estados de Kachin e Shan e da região de Sagaing com destino à província de Yunnan, na China. Devido à extração ilegal, o país perdeu o equivalente ao tamanho da Suíça em cobertura florestal entre 2001 e 2020, segundo a ONG Global Forest Watch (GFW).

A exploração ilegal foi interrompida com a chegada ao poder da NLD (Liga Nacional pela democracia, da sigla em inglês), partido que governou o país desde 2015 até o golpe. Duzentas mil toneladas de madeira chegaram a ser recuperadas e confiscadas no período. O golpe, porém, colocou nas mãos dos militares a MTE (Empresa Madeireira de Mianmar, da sigla em inglês), o que fortaleceu o contrabando.

Destruição

O descaso de governos militares com o meio ambiente é histórico no país. “Os militares de Mianmar têm um histórico terrível em governança ambiental. E têm forte ligação com a China, o único patrocinador internacional do país antes da democratização, e espera-se uma continuação e ampliação dos projetos da Nova Rota da Seda”, segundo o CEOBS (Observatório Britânico de Conflitos e Meio Ambiente, da sigla em inglês).

Segundo os ambientalistas, um ponto que facilita a exploração de madeira é a recusa de muitos fiscais em trabalhar para o governo militar. O problema pode ser notado no Parque Nacional Alaungdaw Kathapa, o maior e mais antigo parque nacional, listado como patrimônio ambiental pela Associação das Nações do Sudeste Asiático. “Centenas de exploradores de jacarandá operam diariamente em áreas remotas do parque depois que os oficiais foram embora”, disse mais um ambientalista que pediu para não ser identificado.

Com base nas imagens de satélite, um especialista de Yangon afirma que parte da floresta tropical do parque possivelmente desapareceu nos últimos seis meses. Porém, ele afirma que é difícil estabelecer a área exata do desmatamento. “O parque não é apenas um lugar sagrado para os budistas, mas também uma das áreas de biodiversidade mais importantes do país”, disse ele.

Conforme o Ocidente contesta o golpe e a junta militar, sanções financeiras foram impostas ao governo de Mianmar pelos Estados Unidos e pela União Europeia. A MTE está entre as atingidas pela punição, mas o comércio com vizinhos como China, Índia e Tailândia, mantém o negócio ativo e forte.

E, em vez de ajudar a controlar o problema, as sanções podem aumentá-lo. Como o regime militar enfrenta uma escassez de moeda estrangeira, é possível que aumente a permissão para que empresas atuem na extração de madeira em áreas onde a floresta deveria ser protegida.