Estudantes muçulmanas dizem ter sido impedidas de assistir a aulas usando hijab

Grupos estudantis e de direitos humanos acusam a administração da instituição de perseguição à minoria étnica
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no email

Um grupo de estudantes muçulmanas na faixa dos 18 anos diz ter sido impedido de assistir às aulas em uma faculdade no Estado de Karnataka, na Índia, por causa do uso do hijab. Ao entrarem na sala vestidas com o véu que faz parte do conjunto de vestimentas recomendado pela doutrina islâmica, a professora prontamente gritou para as alunas: “Saiam”. As informações são da agência catari Al Jazeera.

“Quando chegamos à porta da sala de aula, a professora disse que não podíamos entrar com o hijab”, disse a jovem identificada como A. H, Almas. “Ela nos pediu para removê-lo.”

Desde que o episódio ocorreu, em dezembro do ano passado, pelo menos seis alunas muçulmanas matriculadas em uma faculdade feminina pública gerida pelo governo do distrito de Udupi, no sul do país, têm sido obrigadas a ficar fora da sala de aula porque a administração alega que elas estão “desafiando as regras”, já que as vestes tradicionais não integram o uniforme da instituição.

Estudantes muçulmanas, apenas por usarem hijab, não foram autorizadas a entrar na sala de aula de uma faculdade administrada pelo governo (Foto: Twitter/Reprodução)

As garotas justificaram que o hijab é “parte de sua fé” e usá-lo é “seu direito garantido por lei”. “Não vamos ceder, de jeito nenhum”, desafia a jovem Aliya Assadi, que faz parte do grupo.

O assunto ganhou força nas redes sociais. Uma foto que mostra jovens com véus islâmicos sentados nos degraus do lado de fora viralizou na internet, apoiando a causa do grupo e gerando irritação entre a direção da instituição. “É por causa dessa foto que nosso assunto ganhou destaque na mídia”, disse Assadi.

O diretor da faculdade, Rudre Gowda, justificou a medida dizendo que o educandário cumpre as diretrizes impostas pelo ministério da educação, que não permite que as alunas usem o hijab nas salas de aula “pois não faz parte do uniforme”.

Segundo ele, é a primeira vez que esses problemas surgem na faculdade. Porém, ex-alunas relatam ter enfrentado situação parecida no passado.

“Uma vez, um professor fez uma aluna que usava hijab sentar no chão no meio da aula e tirá-lo. Enfrentamos muita humilhação por escolher usar o véu. Mas, naquela época, eles nos permitiram entrar na sala de aula”, disse Athiya, que atualmente estuda na Universidade Manipal em Karnataka.

“Islamofobia”, acusa ativista

A proibição do hijab causou revolta no país. Grupos estudantis e de direitos humanos acusam a administração da faculdade de parcialidade contra a minoria muçulmana. “É islamofobia. É o apartheid”, disse a ativista Afreen Fatima, secretária do Movimento da Fraternidade em Nova Délhi.

Uma associação local de advogados também se manifestou sobre o incidente e escreveu ao governo do Estado exigindo uma investigação contra a administração da faculdade e seus professores por “assediarem” os alunos.

“A negação da educação a jovens estudantes muçulmanas e forçá-las a escolher entre a educação e sua fé é uma questão de direitos humanos e deve ser tratada como tal”, escreveu a associação em sua carta.

Uma representação estudantil esteve reunida com a direção da instituição para buscar uma solução. Porém, de acordo com Aseel Akram, membro do Campus Front of India (CFI), uma organização de estudantes muçulmanos, nenhuma ação foi tomada ainda. Ele alega que as autoridades da faculdade e do distrito estão sob pressão do governo estadual para negar seus direitos às meninas.

Karnataka é governada pelo Partido Bharatiya Janata (BJP) do primeiro-ministro Narendra Modi, nacionalista hindu.

Por que isso importa?

divisão entre muçulmanos e hindus é histórica na Índia. No país, os muçulmanos são vítimas de preconceito, preteridos em empregos e alvos de todo tipo de barreira para alcançar a independência econômica e social. O Hinduísmo é a religião de 80,5% da população do país, contra 13,4% do Islamismo e 2,3% do Cristianismo.

A polarização religiosa é reflexo de um conflito que dividiu em três a antiga colônia britânica no subcontinente indiano, ainda no final dos anos 1940. A Índia, de maioria hinduísta, está no centro, cercada no leste e no oeste por duas nações de fé islâmica, Bangladesh e Paquistão, respectivamente.

O extremismo muçulmano, por parte de grupos jihadistas em todo o mundo, só faz aumentar o preconceito contra os seguidores da fé islâmica na Índia.

Devido ao conflito religioso, diversos Estados da Índia estabeleceram, no final de 2020, leis que criminalizam o casamento entre pessoas de fés diferentes. A Lei Especial do Casamento exige um período de aviso prévio de 30 dias para casais inter-religiosos.

Alguns Estados sob o domínio do BJP tomaram medidas adicionais. Eles introduziram leis que proíbem a “conversão ilegal”, a fim de impedir que hindus mudem de religião para se casarem com pessoas de outras fés.

O choque entre as fés influenciou até no controle da pandemia. Quando surgiram os primeiros casos de Covid-19 na Índia, uma teoria da conspiração se espalhou rapidamente. Era um processo de desinformação em massa chamado de “coronajihad”, que vinculava os muçulmanos ao até então desconhecido novo coronavírus.

A situação bastou para inflar a tensão entre muçulmanos e hindus em todo o território indiano. Não demorou muito para que islâmicos fossem espancados ou tivessem leitos hospitalares negados, enquanto trabalhadores da saúde eram rejeitados nos hospitais lotados e carentes de profissionais.

Tags: