ARTIGO: Das guerras à Covid, relações internacionais em transformação

Pandemia da Covid-19 coloca em xeque o cenário global e tende a remodelar o percurso internacional, diz pesquisador
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Artigo publicado originalmente no portal da Revista Mundorama

*por Murilo Vilarinho, politólogo e docente da UFG (Universidade Federal de Goiás)

A Paz de Vestfália, em 1648, marcou não apenas o fim das guerras religiosas, como também a emergência de um novo sistema internacional. A ordem mundial, desde esse contexto, vem sendo transformada, conforme se apresentam o movimento das forças profundas nas relações internacionais, seguindo Viena, Versalhes, Yalta, até os tempos sombrios, em que a pandemia hodierna causada pela Covid-19 tem colocado em xeque o cenário global, remodelando o percurso da sociedade internacional.

Partindo do exposto, esta proposta busca falar sobre relações internacionais, em geral, desde a origem do sistema inaugurado no século XVII até a atual situação caracterizada pela pandemia que assolado o mundo. A metodologia empregada baseou-se em pesquisa exploratória, de base bibliográfica. Como resultados, acredita-se que as relações internacionais estão experienciando um novo momento de transformação, cuja pandemia pode ser assinalada, em essência, como uma das forças profundas.

As forças profundas são, por exemplo, aspectos geográficos, econômicos, sociais, da mentalidade coletiva, políticos, que impulsionam as transformações na cena internacional, segundo consta das ideias advindas da Escola Francesa de Duroselle e Renovin (1967). Essas forças são de várias naturezas, estando por trás das relações internacionais, das ações estratégicas dos homens de Estado, impelindo guerras, cooperações, paz.

As forças profundas, em suma, corroboram o desencadeamento de fenômenos internacionais diversos, sendo um dos principais, a mudança da ordem internacional.

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Profissional da saúde da Addis Abeba, capital da Etiópia, manejam doses de vacina para 14 milhões de crianças em junho de 2020 (Foto: Unicef/Nahom Tesfaye)

No ano de 1648, a Guerra dos Trinta Anos, entre católicos e protestantes, encerrava-se. Os Tratados de Vestfália foram acordados e, a partir de então, uma nova ordem nasceria em substituição ao sistema medieval cristão vigente, em que a razão de Estado maquiavélica, princípio da não-intervenção, o recurso à diplomacia, noção de soberania e o direito internacional, baseado no pensamento de Hugo Grotius, passariam a conduzir uma sociedade de Estados soberanos. Nesse sentido, o Estado Moderno estava sendo descortinado.

Se as Guerras de Religião no século XVII foram forças profundas que impeliram ao estabelecimento de uma ordem de Estados soberanos nascentes, a balança de poder afiançada nesse período entrou em choque com as dissidências entre Prússia e França no século XVIII.

A conquista pela hegemonia somada pelos ventos oriundos da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas foram as forças indicativas para a configuração de uma nova ordem, inaugurada em Viena, Áustria, por meio do conhecido Congresso de Viena de 1815 (ARON, 2002).

O Concerto Europeu começa a colapsar com a Guerra Franco-Prussiana e finda-se com a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Os nacionalismos e o desenvolvimento econômico desigual das nações do Concerto Europeu podem ser entendidos como as forças insidiosas que levaram à queda da arquitetura de Viena.

Houve a tentativa de instauração de ordem provinda do Tratado de Versalhes e dos 14 Pontos de Wilson, em uma postura política e diplomática idealistas; contudo o sistema naufragou com o belicismo realista à Hans Morgenthau (2002): fala-se da Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939–1945 (HOBSBAWM, 1995).

Em Yalta, tentou-se o soerguimento de uma nova ordem que foi solapada pela Guerra Fria em suas várias facetas ao longo de décadas entre coexistência, Détente, até o fim da bipolaridade entre Capitalismo e Socialismo.

A partir dos anos 1980, a governança global marcada pelo multilateralismo político, financeiro, econômico, a cooperação internacional, a eclosão das democracias em muitas partes do mundo, o ímpeto da Sociedade Civil, cada vez mais robusta, questões de cultura, de religião, Revolução Técnico-Científico-Informacional, a globalização corroboraram a construção de um novo contexto em que a ordem mundial, pautada no Estado nacional, passou a dividir o cotidiano com esses elementos de mudança multifacetada.

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Deliberação do Conselho de Segurança da ONU sobre o reforço diplomático na Líbia em dezembro de 2020 (Foto: UN Photo/Eskinder Debebe)

É verdade que outros eventos de matizes díspares — econômico, político, cultural –, entre o final do século XX e as primeiras décadas do século XXI, marcaram as relações internacionais, mas não configuraram forças profundas capazes de mudar um panorama.

Por exemplo, podem ser citados os Movimentos de Seattle, em face da Rodada do Milênio; regras vindas do Consenso de Washington; Crise Imobiliária americana; a Revolução Árabe, os acordos sobre clima; Fórum Social Mundial; políticas internacionais americana, chinesa, latina, europeia.

Em face disso, pode-se dizer que o hodierno contexto lastreado pela pandemia causada pela Covid-19 apresenta-se ao mundo como um momento de transformação impulsionado por uma força profunda dantes imaginada, um vírus, que movimenta questões de saúde pública, segurança de Estado, vacinas, gerência da OMS, ingerência de algumas soberanias, crise financeira, reinvenções e adaptações no mundo do trabalho entre outros aspectos?

A pandemia parece uma corda bamba. Há rumores de que a infecção foi controlada por meio de hábitos que vão do uso de máscaras ao isolamento social; contudo, novos surtos e mortes em profusão tornam-se dados para as diversas mídias, todos os dias, informar ou (des) informar a atual situação do mundo, enquanto há uma corrida no laboratório que talvez seja mais significante do que a corrida marítima do período das Grandes Navegações ou a espacial da Era Contemporânea.

Para as relações internacionais, não é um novo fórum internacional que se instaura para discutir uma nova ordem mundial; mas são as soberanias do planeta, que detectaram que a problemática ultrapassa o viés realista, egoísta da política, devendo pairar sobre a estruturação de mecanismos de cooperação mundial. Nisso, a OMS passa a ocupar o centro do tablado político-diplomático.

Assim sendo, em março de 2020, quando a Organização elevou o estado de contaminação à situação pandêmica de Covid-19, doença causada pelo coronavírus (Sars-Cov-2), o atual secretário do organismo enunciou que “A OMS tem tratado da disseminação [do Covid-19] em uma escala de tempo muito curta, e estamos muito preocupados com os níveis alarmantes de contaminação e, também, de falta de ação [dos governos]”.

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Mulher anda com máscara de proteção em rua de Nova York, EUA (Foto: Evan Schneider/UN Photo)

Isso mostra o discurso protagonista da Organização que, para além das ideologias e lideranças de muitos Estados nacionais, assevera a complexidade da situação, bem como as consequências nefastas que poderão ser legadas aos povos, caso as autoridades competentes dos países e as populações não assumam responsabilidades, com bases científicas, para a erradicação da infecção.

Se a OMS, no plano internacional, se apresenta como uma estrutura multilateral que passa a canalizar poder e influência sobre as relações entre soberanias e sobre a vida em suas sociedades; no plano doméstico, são os Estados em seu papel de gestor de políticas públicas de saúde e ações de contenção da infecção e de assistencialismo que se destacam.

Talvez, aqui, resida um redesenho da governança global. Se ONU, FMI, Banco Mundial foram o tripé de poder durante décadas; a OMS parece ocupar o centro da percepção diplomática mundial, hodiernamente, mesmo tendo a China e os Estados Unidos, dois centros tradicionais de poder político, diplomático, militar, econômico, estratégico, buscando atenuar as mazelas econômicas causada pela Sars-Cov-2, que pode ser vista como uma força profunda a modelar o novo contexto internacional.

Em conclusão, do fim das Guerras de Religião à Covid-19, as relações internacionais estão em constante transformação. O que virá, após a cura dessa infecção, em termos de política internacional, ainda é mera especulação, já que o próprio futuro dessa aparenta estar em revisão. Cenários são traçados, mas a realidade pode ser diferente.

O que permanece de sólido é o protagonismo da OMS (uma nova influência de governabilidade multilateralizada) ditando rumos, de curto, médio e longo prazos, a serem tomados para o equacionamento da situação caótica instaurada pela pandemia, uma verdadeira força profunda, que ainda arrefece a volta à normalidade da vida nas sociedades de todo mundo.

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