Américas

Haiti corre risco de sofrer grande surto do coronavírus

Organizações temem piora da situação já grave do país, devastado pela cólera e pelos efeitos do terremoto de 2010

A Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) alertou no último dia 5 sobre a possibilidade de o Haiti sofrer com um surto do novo coronavírus. O avanço da doença pode gerar uma nova crise humanitária no país, que já lida com a cólera.

Com os casos crescendo rapidamente em outros países das Américas — Estados Unidos, Brasil, Equador e México, entre outros —, a preocupação da organização aumenta.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), divulgados nesta segunda (11), o Haiti registrou até agora 151 casos confirmados do vírus e 12 mortes.

Apesar do número baixo de casos em comparação com outras regiões do mundo, a Opas alerta que um terço desses casos são transmitidos localmente. A probabilidade de propagação é extremamente alta.

“Dezessete mil haitianos retornaram da República Dominicana, onde há transmissão comunitária e se espera que esse número chegue a 55 mil em duas ou três semanas”, destacou a diretora-geral da Opas, Carissa Etienne.

População nas ruas de Porto Príncipe, capital do Haiti (Foto: Leonora Baumann/UN Photo)

Medidas de restrição

Etienne afirmou ainda que não há conscientização nas comunidades haitianas sobre a ameaça do Covid-19 e que é extremamente difícil estabelecer distância social adequada na nação caribenha.

“A maioria dos haitianos não tem acesso a água limpa e saneamento, e muitos vivem em casas superlotadas, onde a quarentena e o isolamento são um desafio. Além disso, há o risco de uma insegurança alimentar crescente que pode levar à fome”, declarou.

Só na capital Porto Príncipe, 850 mil pessoas vivem insegurança alimentar, de acordo com o WFP (Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas). A população total da cidade é de 2,1 milhões.

A delicada situação política, a instabilidade civil e as limitações do sistema de saúde haitiano também contribuem para agravar a situação.

Vulnerabilidade socioeconômica

No Haiti, dos 11 milhões de habitantes, seis milhões vivem abaixo da linha da pobreza. Estima-se que 40% da população, ou dois em cada cinco haitianos, sofra com insegurança alimentar, A informação é do Ecosoc (Conselho Econômico e Social das Nações Unidas).

Além disso, a temporada de furacões, que acontece entre junho e novembro na região, pode agravar ainda mais os problemas da nação caribenha.

A organização acredita que o coronavírus tem o potencial de agravar a crise humanitária, econômica e de direitos humanos no país. Há temores de agravamento das vulnerabilidades já existentes, levando mais pessoas à pobreza.

País mais pobre das Américas, o Haiti convive com instabilidade institucional e miséria generalizada. A situação deteriorou-se após o terremoto de 2010. Na ocasião, ao menos 300 mil haitianos morreram.

As crianças, por exemplo, correm o risco de terem o crescimento comprometido. Muitas dependem da alimentação dada nas escolas, agora fechadas por causa da pandemia.

O Ecosoc chama atenção para a possibilidade da confiança dos haitianos nas instituições se deteriorarem ainda mais, aumentando as tensões políticas e sociais.

“A emergência de saúde causada pelo coronavírus e seus impactos socioeconômicos podem se tornar uma catástrofe humanitária”, afirmou o conselho. “Ameaça-se desfazer alguns dos ganhos de desenvolvimento duramente conquistados na última década e meia no Haiti.”

Medo

Os haitianos que contraíram a doença temem por suas vidas não só pela ação do vírus em seus organismos, mas também pela reação do restante da população. Muitos têm medo de serem linchados por outros moradores de suas comunidades. As informações são da agência de notícias Reuters.

Um cenário semelhante ocorre em relação ao surto da cólera, que começou no país há uma década. Desde 2010, mais de 800 mil pessoas ficaram doentes e cerca de 10 mil morreram.

Nesse período, pelo menos 45 padres da religião vudu haitiana foram assassinados por quem os acusava de ter causado o surto com supostos feitiços.

Apesar do governo do país ter afirmado que não toleraria violência contra os infectados pelo coronavírus, haitianos afirmam que o Estado não tem força o suficiente para impedir a ação dessas pessoas.

No entanto, não é só no Haiti que o coronavírus tem causado estigma: alvejante já foi jogado contra profissionais de saúde nas Filipinas. Na Índia, médicos foram expulsos de suas moradias pelos proprietários dos imóveis alugados, que temem ser infectados.