O governo militar de Mianmar recorreu a contratos comerciais falsos e documentos de importação com informações adulteradas para continuar comprando combustível de aviação do Irã, apesar das sanções internacionais impostas aos dois países. Uma investigação publicada pela Reuters nesta segunda-feira (26) identificou operações que utilizaram empresas intermediárias e ocultaram a verdadeira origem das cargas.
A apuração identificou, entre outras operações, uma remessa de aproximadamente 113 mil barris de combustível iraniano que chegou a Mianmar em dezembro de 2025. A carga foi registrada nos documentos comerciais como diesel proveniente da África do Sul, embora registros de transporte marítimo e análises de imagens de satélite apontassem o Irã como origem.
O esquema permitiu que o combustível continuasse chegando ao país asiático, onde as Forças Armadas enfrentam uma guerra civil desde o golpe de Estado de 2021. Além de abastecer a aviação comercial, o querosene de aviação pode sustentar aeronaves militares utilizadas em bombardeios contra áreas civis.

Contratos falsos
Uma das operações identificadas envolveu a Dynamic Wave, uma intermediária de energia sediada em Mianmar, e a Tawan-Oil Trading, empresa de comercialização de combustíveis da Tailândia.
Em dezembro de 2025, as companhias firmaram um contrato de US$ 15,8 milhões para uma carga descrita como diesel sul-africano. Segundo a Reuters, porém, o navio-tanque Reef transportou combustível de aviação carregado no porto iraniano de Bandar Abbas.
Dados das Nações Unidas e da empresa de análise de comércio marítimo Vortexa não identificaram operações correspondentes de exportação de diesel da África do Sul para Mianmar em 2025. A origem iraniana da carga foi corroborada por registros de transporte e análises de imagens de satélite realizadas pela empresa SynMax Intelligence.
A participação das autoridades de Mianmar também aparece na documentação. Uma carta datada de 30 de novembro de 2025 mostra que o órgão responsável pela supervisão cambial autorizou a emissão de documentos que classificariam a carga como diesel, em vez de combustível de aviação.
A mesma autorização permitiu que a Dynamic Wave e sua cliente, a National Energy Prime Aviation Services Company, realizassem o pagamento à empresa tailandesa. A compradora tem participação societária do governo apoiado pelos militares.
A documentação foi obtida pela organização ativista Justice for Myanmar, que investiga as atividades econômicas da junta militar. A Reuters verificou as informações com registros independentes de transporte marítimo e dados sobre as cargas.
Navios disfarçados
A operação de dezembro não foi um caso isolado. Em maio de 2025, a Dynamic Wave e a Tawan-Oil Trading haviam firmado outro contrato, no valor de aproximadamente US$ 26 milhões, para a suposta compra de 202 mil barris de diesel sul-africano.
Os documentos, entretanto, apresentavam características incompatíveis com o produto declarado. A densidade do combustível correspondia às especificações do querosene de aviação, segundo análise de um especialista consultado pela reportagem e dados técnicos do setor energético.
O preço informado também era mais de 50% superior a uma referência internacional para o diesel, outra discrepância que levantou dúvidas sobre a natureza real da carga.
O navio-tanque Noble transportou pouco menos de 200 mil barris de combustível de aviação até Yangon, principal centro comercial de Mianmar, em junho daquele ano. A análise de imagens de satélite indicou que a embarcação havia carregado o produto em Bandar Abbas, no Irã.
Durante a viagem, o navio transmitiu sinais de localização que indicavam um destino aparente diferente da rota efetivamente percorrida, segundo a investigação da Reuters.
O uso de intermediários comerciais, informações falsas sobre a origem do produto e sinais de localização enganosos dificulta o rastreamento das cargas. Essas práticas também complicam a fiscalização de empresas, bancos e operadores marítimos que participam das transações.
Sanções internacionais
Os Estados Unidos impuseram sanções específicas ao setor de combustível de aviação de Mianmar em 2023, em resposta aos ataques realizados pelas Forças Armadas contra alvos civis durante a repressão à insurgência armada no país.
A compra de petróleo e derivados iranianos também pode expor empresas e intermediários a sanções americanas. Washington mantém restrições econômicas contra o setor petrolífero do Irã, que incluem medidas destinadas a impedir a comercialização internacional de seus produtos.
As operações identificadas pela Reuters mostram, porém, que essas restrições não interromperam completamente o fornecimento de combustível.
O contrato referente à remessa de dezembro determinava que o pagamento fosse depositado em uma conta da Tawan-Oil Trading no Siam Commercial Bank, instituição financeira tailandesa. Um relatório de especialistas das Nações Unidas publicado em 2024 havia identificado a empresa como fornecedora de combustível de aviação para as Forças Armadas de Mianmar e descrito o banco como um importante facilitador de operações de aquisição de materiais militares.
O Siam Commercial Bank afirmou anteriormente que cumpre as normas de combate à lavagem de dinheiro e que suas transações relacionadas a Mianmar eram legítimas e não estavam ligadas ao comércio de armas. A Reuters não conseguiu determinar se a instituição tinha conhecimento da natureza das atividades da empresa tailandesa.
A Tawan-Oil Trading, o banco e o Banco da Tailândia, responsável pela supervisão do sistema financeiro do país, não responderam aos questionamentos enviados pela agência sobre a operação investigada.
Combustível para ataques
Mianmar vive uma guerra civil desde fevereiro de 2021, quando os militares derrubaram o governo democraticamente eleito de Aung San Suu Kyi. O golpe desencadeou uma onda de resistência armada, que passou a reunir organizações étnicas e grupos contrários à junta militar.
Desde então, as Forças Armadas têm realizado ataques aéreos contra territórios controlados por adversários políticos e militares. As operações também atingiram áreas habitadas por civis, provocando mortes e deslocamentos populacionais.
O combustível de aviação é um insumo estratégico nesse contexto. Sem acesso regular ao produto, a capacidade de manter aeronaves em operação fica comprometida, especialmente em campanhas militares que dependem de bombardeios e ataques aéreos.
Segundo uma investigação anterior da Reuters, publicada em janeiro de 2026, o Irã se tornou o principal fornecedor de combustível de aviação para os militares de Mianmar entre outubro de 2024 e dezembro de 2025. Parte significativa das entregas foi realizada pelos navios-tanque Reef e Noble, posteriormente renomeados Maris e Noble, respectivamente.
A agência informou ainda, em outubro, que o transporte de combustível entre os dois países continuou em 2026, com base em imagens de satélite e análises da SynMax Intelligence.