A prolongada guerra da Rússia contra a Ucrânia começa a provocar sinais de desgaste dentro das elites do Kremlin. A avaliação é do ex-diplomata russo Boris Bondarev, que afirma que empresários, burocratas e integrantes do sistema político demonstram crescente irritação com o cenário econômico e militar do país, embora não tenham condições de remover o presidente Vladimir Putin do poder. As informações são do The Moscow Times.
Segundo Bondarev, o conflito, que já ultrapassa cinco anos, destruiu expectativas de uma rápida vitória militar e de uma posterior normalização das relações com o Ocidente. Para ele, o impasse da guerra e a permanência das sanções internacionais aprofundam tensões internas e revelam fragilidades no sistema político russo.
“O modelo de poder de Putin depende da percepção de estabilidade e controle. Quando a guerra se prolonga sem resultados claros, essa imagem começa a se desgastar até mesmo entre aliados”, avalia o ex-diplomata.

Economia russa enfrenta desgaste estrutural
Apesar de Moscou continuar divulgando dados de crescimento econômico, especialistas apontam sinais crescentes de fragilidade estrutural. O investimento massivo no complexo militar-industrial impulsionou temporariamente a economia, mas também aumentou desequilíbrios internos.
A Rússia enfrenta inflação elevada, escassez de mão de obra, dificuldades logísticas, dependência tecnológica de importações e queda nos investimentos privados. O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento fraco para a economia russa nos próximos anos.
De acordo com Bondarev, o chamado “superaquecimento de guerra” mascarou problemas internos que agora começam a se agravar. Ele afirma que parte da elite econômica percebe que o modelo atual ameaça o desenvolvimento de longo prazo do país.
“Elites russas vivem armadilha política”
O ex-diplomata argumenta que, embora exista desconforto crescente dentro do Kremlin, não há mecanismos reais para uma mudança política organizada. O sistema russo, segundo ele, tornou-se extremamente centralizado e dependente da figura de Putin.
Além disso, o temor constante de vigilância por parte do FSB impede qualquer articulação interna contra o governo.
“A falta de confiança entre membros da elite praticamente inviabiliza conspirações ou movimentos coordenados”, afirma.
Bondarev também sustenta que a guerra passou a ser parte essencial da manutenção do sistema político russo. Para ele, encerrar o conflito significaria colocar em risco os próprios interesses das elites que sustentam o regime.
Sistema político depende de Putin
Na avaliação do ex-diplomata, o principal obstáculo para uma eventual transição é o fato de que o sistema político russo está diretamente ligado à figura de Putin.
O partido governista Rússia Unida, segundo ele, não possui autonomia institucional suficiente para sobreviver sem a liderança presidencial.
Bondarev compara a estrutura política russa a regimes altamente personalistas, nos quais a legitimidade do sistema depende diretamente do líder. Por isso, ele considera qualquer transição de poder na Rússia um processo “extremamente perigoso e imprevisível”.
Guerra da Ucrânia continua sem solução
Enquanto isso, a guerra na Ucrânia segue sem perspectiva clara de encerramento. Kiev ampliou sua capacidade militar e mantém ataques de longo alcance contra alvos russos, enquanto os países ocidentais continuam fornecendo apoio militar e financeiro ao governo ucraniano.
Para Bondarev, o problema não se resume à figura de Putin, mas à própria lógica do sistema político russo.
“O regime depende permanentemente da existência de um inimigo externo. Sem mudanças estruturais, a Rússia tende a reproduzir os mesmos conflitos e crises”, conclui.