O bloqueio da internet imposto pelo governo do Irã em meio ao conflito no Oriente Médio vem causando impactos profundos na economia do país, especialmente entre as mulheres que dependiam do ambiente digital para trabalhar e sustentar suas famílias. As informações são da Radio Free Europe.
Desde fevereiro de 2026, o país enfrenta sucessivas interrupções na conexão online, incluindo o apagão digital mais longo já registrado na história iraniana. O cenário afetou milhões de trabalhadores, mas especialistas e autoridades locais apontam que as mulheres estão entre as principais vítimas da crise.

Muitas iranianas haviam construído pequenos negócios online nos últimos anos, usando plataformas como Instagram e aplicativos de mensagens para vender produtos, oferecer serviços e garantir independência financeira. Com o acesso restrito à internet, milhares perderam clientes, renda e oportunidades de trabalho.
Uma professora de ioga de Teerã relatou à reportagem, que as restrições a impediram de continuar dando aulas online, sua única fonte de renda.
“Com a guerra e o bloqueio da internet, a vida parou para muitos”, afirmou.
O governo iraniano intensificou as restrições digitais após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o país. Mesmo após um cessar-fogo considerado frágil, o acesso à internet continua limitado para grande parte da população.
Hoje, apenas pessoas autorizadas pelo governo ou cidadãos que conseguem pagar por serviços caros de VPN conseguem acessar parte da rede mundial.
Segundo Gholamhossein Mohammadi, vice-ministro do Trabalho do Irã, a guerra já provocou a perda de cerca de 1 milhão de empregos e afetou diretamente ou indiretamente outros 2 milhões de trabalhadores.
A vice-presidente iraniana para Assuntos da Mulher e da Família, Zahra Behruz Azar, afirmou que os cortes na internet atingiram severamente os chamados “trabalhos informais” femininos. De acordo com ela, aproximadamente um terço dos pedidos recentes de seguro-desemprego foi apresentado por mulheres.
Embora a participação feminina formal no mercado de trabalho iraniano seja estimada em apenas 18%, milhares de mulheres encontraram na internet uma alternativa para gerar renda sem depender de estruturas tradicionais de emprego.
Especialistas afirmam que o ambiente digital criou uma espécie de “mercado de trabalho paralelo” para mulheres iranianas, principalmente para aquelas que vivem em áreas rurais ou enfrentam barreiras sociais para trabalhar fora de casa.
Leila, moradora de uma vila próxima a Marand, no noroeste do Irã, sustentava a família vendendo comida caseira pelo Instagram. Segundo ela, os cortes na internet praticamente zeraram as vendas.
“Muitos clientes chegavam por recomendações online. Agora essa conexão foi destruída”, relatou.
Além das empreendedoras digitais, mulheres que atuavam em setores como tradução, publicação, publicidade e atendimento remoto também enfrentaram demissões em massa.
A socióloga Simin Kazemi afirmou que estereótipos de gênero contribuem para que as mulheres sejam as primeiras dispensadas durante crises econômicas.
“Na mentalidade coletiva, o trabalho feminino ainda não é visto como essencial”, declarou.
Kazemi alertou que o aumento do desemprego feminino pode empurrar milhares de famílias iranianas para a extrema pobreza, especialmente porque mais de 22% dos lares do país são chefiados por mulheres.