Quando a Rússia deixou aliados “a ver navios”: seis casos que questionam a confiabilidade militar de Moscou

Uma análise de episódios históricos em que parceiros de Putin — da Sérvia à Armênia — aguardaram apoio militar russo sem resposta efetiva, alimentando desconfiança geopolítica e reconfigurando alianças no pós-Guerra Fria

Durante décadas, a Rússia construiu sua imagem como fiadora de segurança para aliados estratégicos em diferentes regiões do mundo, do Leste Europeu ao Oriente Médio. No entanto, uma sequência de crises recentes e históricas mostra que, quando esses parceiros enfrentaram ameaças, como guerras, intervenções externas ou colapsos internos, Moscou frequentemente optou pela contenção diplomática ou pela inação militar, abrindo um debate crescente sobre a confiabilidade do Kremlin como aliado de defesa.

A discussão ganhou novo fôlego após a percepção de que a Rússia, sob Vladimir Putin, evitou agir de forma decisiva diante do agravamento da crise política e militar na Venezuela, mesmo sendo um dos principais apoiadores internacionais do governo de Nicolás Maduro.

A seguir, seis episódios documentados ilustram como parceiros militares de Moscou ficaram “a ver navios” quando mais precisaram de apoio.

Putin acompanha exercícios conjuntos das frotas do Norte e do Mar Negro em 2020 (Foto: WikiCommons)
1. Sérvia × Pressão da Otan e Kosovo (1999–2008)

Durante a crise do Kosovo no final dos anos 1990, a Rússia manteve laços históricos e cooperação político-militar com a Sérvia desde a Guerra Fria, mas não impediu a intervenção da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) nem conseguiu garantir proteção militar concreta ao aliado quando as forças da Aliança estabeleceram controle sobre Kosovo após a guerra.

A independência unilateral proclamada em 2008 e a reação russa posterior evidenciam uma oposição diplomática, mas sem ação militar para reverter o desfecho imposto pela Otan.

Um episódio emblemático dessa relação tensa foi o Incidente no Aeroporto de Pristina, em junho de 1999, em que tropas russas tentaram assegurar presença antes da KFOR (força da Otan), gerando um impasse com os aliados ocidentais; contudo, o resultado final manteve o comando integrado da aliança atlântica no território.

2. Quirguistão × Violência interna e colapso do regime (2010)

Em junho de 2010, o Quirguistão enfrentou violentos confrontos étnicos e a queda de parte do governo no sul do país, envolvendo centenas de mortos e milhares de deslocados entre comunidades quirguiz e uzbeque.

Embora Bishkek tivesse laços estratégicos com Moscou e fosse membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), o Kremlin recusou a intervenção militar direta, classificando os conflitos como um “assunto interno” e optando por não enviar tropas para estabilizar a situação, mesmo após apelos públicos por ajuda.

3. Líbia × Intervenção da Otan (2011)

Antes de 2011, a Rússia mantinha relações econômicas e militares com o regime de Muammar al-Gaddafi. Contudo, quando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU autorizou uma zona de exclusão aérea e ações militares contra Gaddafi, a Rússia absteve-se na votação em vez de vetar, permitindo que a coalizão liderada pela Otan prosseguisse sem bloqueio russo no Conselho.

Essa abstenção facilitou a operacionalização da intervenção internacional e contribuiu para a queda do regime aliado de Moscou, sem que a Rússia oferecesse apoio militar efetivo para reverter o quadro, relatou a Reuters.

Muammar al-Gaddafi, em foto de 2009 (Foto: WikiCommons)
4. Síria × Ataques externos e limites da defesa russa (2015–presente)

A intervenção militar da Rússia na guerra civil síria desde 2015 foi um marco da projeção de força de Moscou no Oriente Médio, sustentando o regime de Bashar al-Assad com apoio aéreo e logístico. Contudo, diante de ataques aéreos recorrentes de Israel em território sírio, relatos e análises internacionais apontam que Moscou muitas vezes não acionou seus sofisticados sistemas de defesa antiaérea para proteger o aliado, optando por evitar um confronto direto com Israel ou os Estados Unidos, segundo a Deutsche Welle.

Analistas estrangeiros também destacam que, mesmo com presença militar significativa, a Rússia priorizou negociações e cessar-fogo diplomáticos em vez da escalada de resposta militar tradicional, o que tem sido visto por alguns críticos como limitação prática ao suporte militar direto.

Assad e Putin em 2018 (Foto: WikiCommons)
5. Armênia × Azerbaijão (Guerra de Nagorno-Karabakh — 2020)

A Armênia, membro da OTSC e com uma base militar russa em seu território, foi atacada pelo Azerbaijão em 2020 durante a escalada do conflito por Nagorno-Karabakh.

Apesar das expectativas de assistência militar no âmbito da aliança, a Rússia não enviou forças regulares em combate nem impediu a ofensiva azerbaijana, limitando-se a mediar um cessar-fogo. Essa postura foi interpretada por autoridades armênias e observadores externos como falha em traduzir compromissos de defesa coletiva em ação militar concreta, de acordo com a Isto É.

6. Armênia × Azerbaijão (Ofensiva final em Nagorno-Karabakh — 2023)

Em 2023, o Azerbaijão lançou uma ofensiva decisiva em Nagorno-Karabakh, levando à retomada total da região e ao êxodo em massa de civis armênios.

Forças russas de manutenção da paz estavam presentes desde o acordo de 2020, mas não intervieram de forma efetiva para impedir a ofensiva, gerando severas críticas de líderes armênios e de observadores internacionais que acusaram Moscou de não cumprir o papel esperado de garante de segurança, destacou a Euronews.

O que esses casos revelam

Ao longo de décadas, de Balcãs a Ásia Central e ao Cáucaso, episódios distintos mostram que a Rússia, mesmo em alianças formais ou relações históricas estreitas, nem sempre converte compromissos diplomáticos em apoio militar efetivo quando aliados enfrentam crises reais.

Para analistas internacionais, esses padrões alimentam questionamentos sobre a confiabilidade de Moscou como parceiro militar tradicional, especialmente em tempos de restrições orçamentárias e de prioridades estratégicas redefinidas pela guerra na Ucrânia.

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