O primeiro avião comercial MS-21-310 produzido em série com componentes integralmente fabricados na Rússia realizou seu voo inaugural em um marco considerado estratégico para a indústria aeronáutica do país. O modelo é apresentado por Moscou como uma alternativa às aeronaves ocidentais utilizadas em larga escala pelas companhias aéreas russas. As informações são da publicação especializada Military Watch Magazine.
O voo ocorreu em meio aos esforços da Rússia para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente após as sanções ocidentais impostas desde o início da guerra na Ucrânia. A situação gerou falta de peças nos país. A aeronave, agora, avança para a etapa de testes de certificação.

Produção nacional
Segundo a reportagem, o MS-21-310 de produção em série utiliza exclusivamente equipamentos e sistemas fabricados na Rússia.
A aeronave é equipada com motores turbofan PD-14, desenvolvidos pela fabricante russa Aviadvigatel. O projeto também incorpora aviônicos, sistemas de controle de voo, componentes eletrônicos e asas produzidas com materiais compósitos nacionais.
Durante o voo inaugural, pilotos de teste avaliaram características como estabilidade, controlabilidade e funcionamento dos sistemas de bordo. A Rostec, conglomerado estatal russo responsável por diversos programas industriais e militares, informou que os objetivos previstos para o primeiro voo foram cumpridos.
Desafio às sanções
O desenvolvimento do MS-21 ganhou importância depois que as sanções ocidentais restringiram o acesso da Rússia a componentes e serviços fornecidos por empresas estrangeiras.
Antes da guerra na Ucrânia e da ampliação das sanções, companhias aéreas russas dependiam fortemente de aeronaves fabricadas pela Boeing e pela Airbus. As restrições dificultaram a obtenção de peças de reposição, equipamentos e suporte técnico para essas frotas.
Nesse cenário, o MS-21-310 representa uma tentativa de Moscou de reconstruir uma cadeia nacional capaz de atender às necessidades da aviação comercial.
Cadeia estratégica
O projeto vai além da fabricação de uma nova aeronave. O desenvolvimento do MS-21 exigiu investimentos em áreas como motores, aviônicos, computadores de controle de voo, sistemas hidráulicos, componentes eletrônicos e materiais compósitos.
Parte dessas tecnologias também pode encontrar aplicações em outros segmentos da indústria aeroespacial e de alta tecnologia.
Para a Rússia, ampliar a capacidade doméstica de produção de aeronaves significa reduzir a exposição a interrupções provocadas por sanções, restrições comerciais ou dificuldades de acesso a fornecedores estrangeiros.
Frota envelhecida
A necessidade de uma alternativa nacional também está relacionada ao envelhecimento da frota comercial russa. Diante desse cenário, Moscou inclusive iniciou um programa de restauração de aeronaves antigas para enfrentar a crescente escassez de aviões na frota aérea civil, agravada pelas sanções impostas pelo Ocidente desde 2022.
Muitas companhias aéreas do país continuam operando aeronaves Boeing e Airbus. A manutenção desses aviões tornou-se mais complexa diante das restrições impostas ao fornecimento de peças e ao suporte técnico ocidental.

Nesse contexto, uma produção em série bem-sucedida do MS-21-310 poderia oferecer às empresas russas uma alternativa apoiada por uma cadeia de fornecedores domésticos.
Indústria soviética
A Rússia herdou da União Soviética uma importante estrutura de produção aeronáutica. Após o fim do regime, em 1991, porém, a indústria civil russa perdeu espaço e as companhias aéreas passaram a depender cada vez mais de fabricantes estrangeiros.
O MS-21 faz parte da tentativa de recuperar essa capacidade industrial. O programa também representa uma das principais apostas russas para manter uma indústria aeronáutica civil competitiva em um cenário de isolamento tecnológico e econômico.
Voo de 83 minutos
A Rostec informou que o primeiro MS-21-310 de produção em série equipado exclusivamente com sistemas russos decolou do aeródromo da fábrica da UAC em Irkutsk e permaneceu 83 minutos no ar, de acordo com a Eurasia Business News. Durante o teste, a aeronave atingiu 6 quilômetros de altitude e velocidade de 600 km/h, segundo os instrumentos de bordo.
A tripulação avaliou a estabilidade e a controlabilidade do avião em diferentes modos de operação dos sistemas russos. Segundo a corporação estatal, a missão foi concluída integralmente e o desempenho da aeronave foi considerado satisfatório.
“O sucesso do voo de teste da aeronave de produção em série nos permite afirmar que as cadeias de produção estão prontas para a fabricação em série de aeronaves deste tipo”, afirmou a Rostec. A empresa acrescentou que o primeiro lote previsto será composto por 18 unidades.
O programa ainda está na fase de certificação. De acordo com a Rostec, o MS-21-310 já realizou mais da metade dos voos previstos no programa de testes. A fabricante também recebeu autorização para começar a trabalhar em novas encomendas aprovadas pelo governo russo.
O desenvolvimento da configuração atual avançou em etapas. Em 29 de abril de 2025, a Rostec anunciou um voo de teste do MS-21 equipado com novos sistemas russos, incluindo aviônicos, sistemas de alimentação elétrica e equipamentos de ar-condicionado. O teste marcou o início dos ensaios de desenvolvimento realizados pela fábrica.
No fim de maio de 2026, o primeiro MS-21-310 foi montado utilizando tecnologia de produção em série. A previsão anteriormente divulgada pelo chefe da Rostec, Sergei Chemezov, é que os voos de certificação sejam concluídos e a produção em série tenha início em 2027.
A empresa também trabalha em uma versão encurtada da família, denominada MS-21-210. Segundo Chemezov, o modelo deverá ter alcance superior a 5 mil quilômetros.